Este livro não começa em um tribunal. Começa numa estrada de chão.
Na RO-383, Km 12, entre Rolim de Moura e Santa Luzia D'Oeste, existe uma porteira. Não tem brasão. Tem uma tabuleta de madeira queimada pelo sol onde se lê: FAZENDA RIO VERDE.
Ali mora o Texano.
Não o Texano de filme americano. O nosso. De chapéu preto surrado, de Hilux branca com barro no pneu, de Coca-Cola na varanda às 10 da noite porque jurou nunca mais pisar no Bar Recanto dos Peões depois que a vida lhe ensinou que fofoca de bar prende mais que algema.
Escrevemos 30 partes desta crônica policial e, em cada uma delas, eu tentei responder a uma pergunta: como um homem honesto sobrevive quando o próprio sistema tenta prendê-lo?
Vimos o Delegado Augusto e sua escrivã Paloma armarem uma prisão. Vimos uma cela se fechar com uma mentira bem datilografada. Vimos o que poucos veem: o dia em que um homem que sempre prendeu, foi preso.
Mas vimos também o outro lado. O lado que este prefácio homenageia.
Vimos a Dona Cícera sair da sua venda de queijo na curva de Presidente Médici, com medo de Juiz, para dizer a verdade numa sala de videoconferência no Fórum de Cacoal: "ela estava sem bolsa". E uma verdade simples soltou a Sabrina.
Vimos a Sabrina, 24 anos, magra de presídio, com uma sacolinha plástica e uma Bíblia, pisar na terra vermelha da Rio Verde às 22h14 e dormir pela primeira vez em 7 meses sem ouvir barulho de tranca. Ela não veio para ser case de fazenda. Veio para provar que dívida de gratidão se paga com trabalho honesto.
Vimos o Seu Antônio acender a luz da varanda. Vimos o Seu Valdemar apertar a mão de quem tirou a filha da cadeia.
Este livro é, portanto, uma dedicatória.
Dedico-o aos Policiais que investigam sem forjar.
Aos Advogados que defendem sem vender o cliente.
Aos Magistrados que têm coragem de absolver quando a rua inteira grita por condenação.
Vocês são a Dona Cícera deste país. São minoria, mas são a trincheira.
O Texano da Fazenda Rio Verde não é um herói. É um sobrevivente da honestidade. E se ele conseguiu recomeçar no Km 12 da RO-383, com 800 cabeças de gado e uma segunda chance, é porque ainda vale a pena acreditar na verdade real dos fatos.
Esta é a história dele. Mas poderia ser a sua.
Boa leitura.
Rolim de Moura - RO, Fazenda Rio Verde
DEDICATÓRIA
Este livro não é sobre crime. É sobre caráter.
Dedico-o àquela rara estirpe de homens e mulheres que vestem a farda, a toga e a beca não como fantasia de poder, mas como compromisso de honra.
Aos Policiais que se recusam a forjar culpados.
Aos Advogados que se recusam a vender inocentes.
Aos Magistrados que se recusam a enterrar a verdade em despachos frios.
Num tempo em que muitos trabalham pela estatística, pelo holofote ou pelo dinheiro fácil, vocês ainda trabalham pela verdade real dos fatos.
Vocês são a última trincheira entre a barbárie e a Justiça.
Esta crônica é de vocês. E por vocês.
EPÍGRAFE
"A Justiça pode até demorar, mas quando ela chega a cavalo, ela não pede licença."
— O TEXANO