_Quinta-feira, 8h30 - Fórum de Nova Brasilândia d'Oeste - Vara Criminal - Leilão Judicial 07/2025
Na parede do Fórum, edital amarelo, grampeado torto, com carimbo do TJ-RO:
> *FAZENDA TOCA DA ONÇA - MATRÍCULA 4.812 - 240,0 HA - PROPRIEDADE DE LUIZ CARLOS DA SILVA - VULGO LUIZ DA FARMÁCIA - PROCESSO 0002032-44.2024.8.22.0014 - TRÁFICO ART. 33 - AVALIAÇÃO R$ 2.800.000,00 - LANCE MÍNIMO 50% = R$ 1.400.000,00 - VENDA EM LOTE ÚNICO E INDIVISÍVEL - VEDADO FRACIONAMENTO - ART. 893 CPC - AGRICULTURA FAMILIAR TEM PREFERÊNCIA.*
Dentro da sala, 5 cadeiras de plástico. Na primeira fila, 4 mulheres de bota suja de Mombaça:
- Sabrina: R$ 782 mil de indenização da prisão inocente no km 403
- Jéssica: R$ 150 mil da indenização provisória + R$ 1.200 do pastel da mãe
- Patrícia: R$ 120 mil + barriga de 8 meses
- Letícia: R$ 80 mil + filha de 2 anos no colo
Total na conta da Caixa, comprovante na mão do Dr. Evandro: *R$ 1.132.000,00*
Faltavam R$ 268 mil para o lance mínimo. E o problema maior: mesmo que tivessem R$ 1,4 milhão, 240 hectares não cabia no bolso de 4 mulheres que foram presas como mula. O leiloeiro não fracionava. Ou levava 240, ou não levava nada. E na segunda fila, 3 fazendeiros de Vilhena com chapéu de couro e Hilux zero, rindo: "Essas menina vai comprar fazenda de traficante com dinheiro de indenização? Vai plantar o que? Cocaína?"
Texano levantou para brigar. Sabrina segurou: "Deixa. Eles não sabem que a gente vai plantar capim onde tinha droga".
8h55 - Porta bate - Inspetor Siqueira entra. Não de farda PRF. De calça jeans, camisa xadrez, com uma pasta preta e um envelope do Banco do Brasil.
Siqueira, 42 anos, divorciado, 2 filhos em Porto Velho, 20 anos de PRF, noivo de Jéssica da tornozeleira, ex-Inspetor desde ontem.
Dr. Evandro: "Siqueira, você pediu exoneração mesmo?"
Siqueira abriu a pasta na mesa do leiloeiro, na frente das 4:
"Ontem, 17h, protocolei exoneração a pedido na Superintendência da PRF em Porto Velho. 20 anos de serviço. Motivo: 'Incompatibilidade moral com prisões de mulas inocentes na BR-364'. Levei advertência? Levei. Mas levei também isso aqui: extrato do FGTS - R$ 98 mil. Rescisão - R$ 87 mil. Venda do Corolla 2019 - R$ 95 mil. Venda da minha casa financiada de Cacoal - R$ 30 mil de volta. Total: R$ 310 mil.
Eu não vim aqui assistir. Eu vim aqui como 5º sócio. Artigo 12 da Lei 13.606 e Art. 893, §2º do CPC - Consórcio de Agricultores Familiares para arrematação de imóvel rural em leilão judicial. O módulo fiscal de Nova Brasilândia é 60 ha. 240 ha dividido por 4 = 60 ha. 4 módulos. 4 agricultoras familiares. Mas a lei permite até 5 pessoas se um for cônjuge ou companheiro de agricultora familiar. Eu sou noivo de uma. Jéssica. Tornozeleira no pé, mas agricultora. Eu entro com R$ 268 mil que faltam para o lance mínimo. E os R$ 42 mil que sobram eu uso para comprar arame liso, 10 vacas Girolando e pagar o georreferenciamento que o INCRA exige.
Em troca, eu não quero 60 ha. Eu quero 0 ha no papel. Eu quero 20% no trabalho. Eu quero ser o capataz da Cooperativa. Eu quero trocar a pistola .40 por uma enxada. Porque eu passei 20 anos prendendo menina na BR-364 no km 403, 210, 195, 230. Eu prendi a Sabrina. Eu vi nos olhos dela que era inocente e não fiz nada na hora. Depois eu fui atrás da certidão da PRF que absolveu ela. Eu não durmo direito desde o km 403. Agora eu quero dormir em rede, na Toca da Onça, cuidando de 240 ha que era de traficante e agora vai ser de 4 meninas que foram presas inocentes por culpa de traficante como o Luiz.
Se vocês aceitarem, a gente arremata hoje, em 5 CPFs, em nome da COOPERATIVA ESPERANÇA TOCA DA ONÇA - CNPJ em formação. 20% para cada, mas no INCRA fica como agricultura familiar. E o dinheiro da indenização que era só metade, vira fazenda inteira, porque leilão não fraciona, mas a gente se junta."
Silêncio na sala. Os 3 fazendeiros de Vilhena pararam de rir.
Jéssica, de tornozeleira, levantou, com aliança de noivado de R$ 400 que Siqueira comprou nas Casas Bahia:
"Eu aceito. Como agricultora e como noiva. Você me pediu em namoro na porteira da Fazenda Rio Verde com bombom Garoto. Agora me pede em sociedade com FGTS da PRF. Eu aceito os dois".
Sabrina chorou: "Siqueira, você prendeu a gente e agora compra fazenda para a gente?"
Siqueira: "Eu não comprei para vocês. Eu comprei com vocês. Porque se o leilão fosse de 120 ha, vocês compravam sozinhas com R$ 1,1 milhão. Mas como é de 240 ha e só vende lote completo, o Estado obriga vocês a serem grandes. E gente que foi presa inocente com mala de rodinha na BR-364 não tem que ser grande sozinha. Tem que ser grande junta. É isso que o leilão ensina: traficante tinha 240 ha sozinho para guardar droga. Inocente tem que ter 240 ha em 5 para guardar esperança. É matemática de justiça".
Leiloeiro, martelo na mão:
"Lote 07, Fazenda Toca da Onça, 240 ha, lance mínimo R$ 1,4 milhão, quem dá?"
5 mãos levantadas juntas. Sabrina, Jéssica, Patrícia grávida, Letícia com filha e Siqueira de camisa xadrez.
"Nós. Cooperativa Esperança Toca da Onça. R$ 1.400.000,00 à vista. Em 5 CPFs. Art. 12 Agricultura Familiar."
Martelo bateu: "VENDIDO! Para a Cooperativa das 4 Mulas Inocentes + 1 Inspetor Aposentado, por R$ 1,4 milhão! A fazenda que era do Luiz da Farmácia, que guardava cocaína em Nova Brasilândia, agora vai guardar capim Mombaça e 4 mulheres absolvidas!"
Fora do Fórum, Siqueira entregou a farda dobrada para Jéssica:
"Enterra na Toca da Onça. Debaixo do primeiro piquete. Para nunca mais prender inocente."
E Jéssica, com tornozeleira ainda, respondeu: "Não enterra. Usa para espantar pássaro. Porque farda de PRF que virou agricultor espanta mais que espantalho. Espanta traficante."
240 hectares. 92 piquetes agora. 42 da Rio Verde + 50 novos da Toca. 10 vacas Girolando compradas com R$ 42 mil do Corolla do Siqueira.
E no Registro de Imóveis de Nova Brasilândia d'Oeste, naquela tarde, matrícula 4.812 averbada:
> *PROPRIETÁRIOS: SABRINA, JÉSSICA, PATRÍCIA, LETÍCIA E CARLOS SIQUEIRA - COOPERATIVA AGRÍCOLA FAMILIAR ESPERANÇA - ÁREA 240 HA - ORIGEM: LEILÃO JUDICIAL - BEM DE TRAFICANTE REVERTIDO PARA VÍTIMAS DE TRÁFICO.*
_Comente "PARTE 29" para ver a surpresa.
Cena da *Parte 28 - O Leilão que não fraciona:*
*Fórum de Nova Brasilândia d'Oeste, faixa "LEILÃO JUDICIAL - FAZENDA 240 HECTARES - COOPERATIVA DE AGRICULTORAS".*
Na mesa, pilha de *"DOCUMENTOS DA COOPERATIVA - ATA - CONTRATO"* e o edital do Processo. Chapéu de palha em cima dos papéis - de fazendeiro, não de traficante.
No centro, *Inspetor Siqueira*, 42 anos, ex-PRF, de terno sem farda pela primeira vez em 20 anos, segurando a pasta da arrematação com o dinheiro do FGTS + rescisão + Corolla vendido: *R$ 310 mil* que completou os *R$ 1.132.000* das meninas para bater o lance mínimo de *R$ 1,4 milhão* do lote único indivisível.
Ao lado dele, as 4 mãos levantadas juntas - *Sabrina, Jéssica, Patrícia grávida e Letícia* - de jardineira, chapéu de palha, avental "COOPERATIVA BOA ESPERANÇA", sorrindo como quem acabou de comprar não 240 ha, mas 240 hectares de perdão.
É o momento exato do martelo: *"VENDIDO para a Cooperativa das 4 Mulas + 1 Inspetor".*
A fazenda que Luiz da Farmácia usava para esconder droga, agora com placa na porteira: *240 ha, 5 CPFs, 92 piquetes de Mombaça.* Porque o leilão judicial não fraciona o lote, mas a justiça fraciona a culpa e multiplica a esperança.
Seu Antônio diria: "Traficante tinha 240 ha sozinho. Inocente precisou de 5 para ter 240 ha. É a conta mais justa que já vi nesse Fórum".
Fim da Parte 28.