Eliozani Miranda Costa
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CRÔNICA POLICIAL - PARTE 27 _A FAZENDA DAS 4 MULAS E O PEDIDO DO INSPETOR

 

_Segunda-feira, 5h - Fazenda Rio Verde - 42 piquetes de Mombaça - 4 mulheres de bota

 

A sede da Fazenda Rio Verde não era mais sede. Era república. República das Mulas Inocentes da BR-364.

 

4 camas. 4 botas na porta. 4 pulseiras S. RIO VERDE agora, porque Sabrina cortou a dela em 4 e deu um pedaço para cada.

 

- Sabrina, 26, gerente da fazenda, R$ 782 mil de indenização virando capim.

- Jéssica, 22, de Ji-Paraná, tornozeleira, mas já sem medo, medindo altura de capim com régua da UNIR.

- Patrícia, 24, grávida de 7 meses e meio, livre, com laudo da Defensoria no bolso, plantando milho para o filho nascer com cheiro de terra e não de cadeia.

- Letícia, 19, com filha de 2 anos correndo entre os piquetes, cantando "o capim cresce, a gente cresce".

 

Texano? Texano agora é o único homem em 5km, fazendo café para 4 mulheres e uma criança de 2 anos. De chapéu, mas com avental da Sabrina: "Minha sogra de Vilhena mandou. Diz que homem que cuida de 4 mulheres absolvidas não é peão, é pai".

 

Seu Antônio, medindo capim: "Nunca vi Mombaça crescer tão rápido. É porque foi plantado por quem foi presa inocente. Capim de gente livre cresce mais alto".

 

10h - Porteira da fazenda - Hilux da PRF - Inspetor Siqueira.

 

Siqueira desceu. Não de farda. De calça jeans, camisa polo, com uma caixa de bombom Garoto e um buquê de flores do Cerrado.

 

Sabrina: "Inspetor, o que foi? Achou mais droga na BR?"

 

Siqueira, 42 anos, divorciado há 3 anos, 2 filhos com a ex em Porto Velho, 20 anos de PRF, aquele que prendeu Sabrina no km 403 e que depois achou a certidão da PRF que provou que ela era inocente, olhou para Jéssica.

 

Desde a palestra da UNIR, ele não tirava Jéssica da cabeça. A menina de Ji-Paraná que levantou a mão, de tornozeleira, e falou "Eu sou uma das 3". A menina que vendeu pastel da mãe para pagar advogado de outras presas.

 

Siqueira: "Jéssica, posso falar com você 2 minutos? Sozinho, ali na porteira?"

 

Jéssica, com a régua de capim na mão, com medo: "Fala aqui mesmo. Na frente das meninas. Eu não tenho mais segredo".

 

Siqueira respirou fundo, na frente de Sabrina, Texano, Patrícia grávida e Letícia com filha no colo. Tirou o boné.

 

"Jéssica, eu sou o Inspetor Siqueira. Eu tenho 42 anos, sou divorciado, tenho 2 filhos, moro em Cacoal. Eu te prendi? Não. Mas eu prendi a Sabrina no km 403, e eu vi nos olhos dela que ela era inocente. Eu não dormi 3 noites. Depois, eu fui atrás da certidão da PRF, e eu ajudei a absolver ela. E quando você levantou a mão na UNIR, com tornozeleira, falando 'Eu sou uma das 3', eu... eu senti a mesma coisa que senti com a Sabrina: que você é inocente. E que você é corajosa.

 

Eu sei que você tem 22, eu tenho 42. Eu sei que você está com tornozeleira, respondendo por 10kg que não é seu. Eu sei que sua mãe vende pastel na feira de Ji-Paraná. E eu sei que você tem medo de homem de farda, porque foi homem de farda que te algemou no km 210.

 

Mas eu não vim aqui como Inspetor. Eu vim como Siqueira. Divorciado, sozinho, que depois da absolvição da Sabrina pediu transferência para Rolim de Moura só para ficar perto da Fazenda Rio Verde e ver se a justiça dava certo de verdade.

 

Jéssica, você quer namorar comigo? Namoro sério, com pedido na porteira, na frente das suas amigas, com bombom e flor do Cerrado. Eu não tenho R$ 782 mil, eu tenho R$ 15.200 de salário de PRF. Mas eu tenho a chave do meu apartamento em Cacoal, e eu tenho a minha palavra de que nunca mais na minha vida eu vou deixar uma menina ser presa inocente na BR-364. E se você quiser, eu tiro sua tornozeleira com Revisão Criminal, e a gente vai juntos na feira de Ji-Paraná comer pastel da sua mãe. E eu pago."

 

Silêncio. Até a filha de 2 anos da Letícia parou de correr.

 

Jéssica, com a régua de capim na mão, olhando para aquele homem de 42, divorciado, que trouxe flor do Cerrado e bombom Garoto, que foi o homem que provou que a amiga dela era inocente, chorou.

 

" Inspetor... eu estou de tornozeleira. Eu posso ser condenada a 4 anos. Minha mãe vende pastel. Eu não tenho nada. Só tenho essa régua e 1.200 do pastel".

 

Siqueira: "E eu tenho 20 anos de BR-364. Eu já vi de tudo. Mas nunca vi uma menina de 22 anos tirar dinheiro do pastel da mãe para pagar advogado de outra presa que ela nem conhecia. Isso, para mim, vale mais que R$ 782 mil. Você tem coragem. E eu preciso de coragem do meu lado, porque eu vou me aposentar da PRF e vou virar advogado para defender mula inocente. Como o Dr. Evandro."

 

Patrícia, grávida de 7 meses, gritou: "Fala que sim, Jéssica! Se o homem que te prende te pede em namoro para te soltar, é porque ele te ama!"

 

Sabrina tirou a chave enferrujada do pescoço: "Jéssica, essa chave abriu a sede para mim quando eu saí da cadeia. Hoje, ela abre a porteira para você namorar. Fala sim".

 

Jéssica largou a régua, pegou o buquê e o bombom.

 

"Sim. Mas com uma condição: você vai me levar na feira de Ji-Paraná, vai comer pastel da minha mãe, e vai pedir para ela também. Porque mãe que vende pastel para ver a filha ser absolvida tem que ser pedida também".

 

Siqueira colocou a tornozeleira dela no bolso? Não. Ainda não podia. Mas colocou o boné na cabeça dela.

 

Naquela tarde, a Fazenda Rio Verde teve 2 festas: plantio do piquete 43 e noivado da Jéssica com o Inspetor Siqueira, na porteira, com café de Texano e bolo de milho da Patrícia grávida.

 

*Na Parte 28 - O Casamento na Porteira e a Indenização das 4: Dr. Evandro ganha as 4 Revisões Criminais e as 4 ganham R$ 600 mil cada de indenização do Estado de Rondônia. E o que fazem com R$ 2,4 milhões? Compram a Fazenda do Luiz da Farmácia que foi a leilão.*

 

_Comente "PARTE 28" para ver o casamento de Jéssica e Siqueira de tornozeleira e o leilão da farmácia._

 

Cena da *Parte 27 - O Pedido na Porteira:*

*Fazenda Esperança / Fazenda Rio Verde, 10h.* Porteira de madeira com a placa. Chão de terra batida.

 

*Inspetor Siqueira*, 42 anos, divorciado, 20 anos de PRF, aquele que prendeu Sabrina no km 403 e depois trouxe a certidão que absolveu ela, de joelho na terra, de farda PRF completa, com buquê de flores do Cerrado, caixa de bombom Garoto dourada e anel de noivado na caixinha preta aberta.

 

Na frente dele, *Jéssica*, 22 anos, de Ji-Paraná, de jardineira, chapéu na mão, chorando com a mão na boca, com a *tornozeleira eletrônica* ainda no tornozelo - presa inocente que vendeu pastel da mãe para pagar advogado de outras presas.

 

Ao fundo, na porteira, as testemunhas que a BR-364 juntou: a mãe de Jéssica de avental de feira, Patrícia grávida de 7 meses e Sabrina de boné, todas de mão no peito, como quem vê justiça virar amor.

 

É o momento em que o homem que antes algemava na BR-364, agora pede em namoro na porteira. E a menina que foi presa com 10kg que não era dela, diz "sim" de tornozeleira, mas com anel.

 

Seu Antônio gritaria: "Esse pedido vale mais que R$ 782 mil de indenização. Porque homem que pede menina de tornozeleira em namoro, não quer corpo. Quer história".

 

Final da Parte 27.

Werneck Bellini
Enviado por Werneck Bellini em 05/09/2026
Alterado em 08/09/2026
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