_Segunda-feira, 6h - BR-364, km 28 - Hilux preta do Luiz agora deles, indo para Vilhena
Dona Lourdes, 68 anos, mãe de Texano, mora em Vilhena há 20 anos. Viúva, católica, do terço todo dia às 18h. Para ela, nora é Paloma. Nunca aceitou a separação. "Paloma era fina, usava salto, era da cidade".
Quando Texano ligou: "Mãe, vou aí com minha namorada", Dona Lourdes respondeu: "Você voltou com a Paloma, graças a Deus".
Texano: "Não, mãe. Vim com a Sabrina".
Dona Lourdes desligou. Depois mandou áudio: "Traz então. Mas avisa que na minha casa não entra quem já foi presa".
Sabrina ouviu o áudio na Hilux. Ficou quieta. Mexeu na pulseira S. RIO VERDE. A cicatriz em J coçou, como sempre coça quando lembram da cadeia.
"Texano, eu não vou. Sua mãe vai me humilhar".
Texano parou a Hilux no acostamento, no meio do nada, entre Rolim e Vilhena. Desligou o carro.
"Sabrina, há 5 anos minha mãe me vê como fracassado. Porque perdi 86 vacas, porque fui preso 3 dias por pensão por filho que não é meu, depois fui preso dinovo por armação de Sabrina e o Delegado Augusto, porque a Paloma me largou. Hoje, pela primeira vez, eu vou chegar em Vilhena dirigindo uma Hilux que eu arrematei no leilão do cara que te prendeu, com R$ 782 mil no bolso de indenização que você me ajudou a ganhar, com uma fazenda lotada de capim Mombaça que você plantou, e com uma namorada que ficou 5h trocando meu pano de febre. Se ela não te respeitar, a gente volta e nunca mais retorna. Mas a gente vai".
Sabrina chorou. Pela primeira vez, um homem parava um carro no meio da BR para defender ela, e não para largar ela com 12kg de droga no colo.
A CHEGADA EM VILHENA - 10H
Casa simples, de muro baixo, com imagem de Nossa Senhora Aparecida na porta.
Dona Lourdes abriu a porta, de avental, com terço na mão. Olhou para Sabrina dos pés à cabeça: calça jeans, bota, blusa simples, sem salto, sem maquiagem.
"Então é você. A menina que o meu filho falou que foi presa?".
Sabrina não baixou a cabeça. Fez o que o Dr. Evandro ensinou no Júri: fala a verdade, curta, com prova.
"Dona Lourdes, bom dia. Meu nome é Sabrina, tenho 25 anos, sou zootecnista formada pela UNIR. Fui presa inocente na BR-364, em Presidente Médice, no dia 14 de março de 2024, por uma carona. Fiquei 8 meses presa. Fui absolvida em Revisão Criminal nº 0823456-77.2024.8.22.0000, com prova nova de testemunho da Dona Cícera e áudio do Luiz da Farmácia confessando que a droga era dele. Hoje sou gerente de pastagem da Fazenda Rio Verde, com contrato de comodato vitalício registrado em cartório, e namorada do seu filho. Trouxe um presente para a senhora".
E entregou um pacote com um vestido novo e um saco de 5kg. Não era café. Era semente de *Mombaça*.
Dona Lourdes riu, sem querer: "Semente de capim? Quem traz semente de capim para sogra?"
"Quem quer que a sogra entenda que capim bem plantado vale mais que salto alto, Dona. Paloma nunca pisou num piquete. Eu piso todo dia. E trouxe também isso".
E entregou uma pasta. Dentro, a *escritura da Fazenda Rio Verde* com a *Cláusula de Incomunicabilidade e Inalienabilidade* e o *extrato do processo das 86 vacas*, com a decisão de R$ 782 mil.
"Essa fazenda que seu filho quase perdeu para a Paloma, hoje está salva porque tem cláusula. E o dinheiro que ele ganhou, foi porque eu ajudei ele a provar que as 86 vacas sumiram. Eu não quero nada da fazenda da senhora. Eu quero só que a senhora saiba que seu filho não é fracassado. Ele é o homem que pagou R$ 30 mil de advogado para tirar uma desconhecida da cadeia, sem pedir nada em troca".
Dona Lourdes ficou em silêncio. Olhou para o vestido, para a semente, para a escritura, para o filho que estava de pé, com chapéu na mão, como quando era criança.
E aí fez o que mãe de fazendeiro faz: foi na cozinha, trouxe 3 copos de suco de maracujá do quintal, e falou:
"Senta. Se você planta Mombaça e ficou com meu filho na febre de carrapato, você pode sentar na minha mesa. Mas me explica esse negócio de piquete rotacionado que meu filho nunca aprendeu".
E Sabrina explicou. Durante 2 horas, na mesa da cozinha, com Dona Lourdes anotando num caderno de receita, Sabrina explicou como 42 hectares viram 42 piquetes, como se mede capim com régua, como se recupera pasto degradado.
No final, Dona Lourdes levantou, foi no quarto, pegou uma caixinha de madeira, e entregou para Sabrina.
"Essa pulseira era minha, de quando casei com o pai do Texano. Não é de couro igual a sua S. RIO VERDE, é de prata. Mas é de mulher que segura fazenda. Usa. Porque Paloma nunca quis usar. Falava que era coisa de velha".
Sabrina colocou a pulseira de prata no pulso esquerdo, junto com a S. RIO VERDE no direito.
Na volta, na BR-364, Texano dirigindo a Hilux preta, Sabrina dormindo no banco do passageiro, com duas pulseiras no pulso.
Seu Antônio ligou: "Deu certo com a sogra?"
Texano respondeu: "Deu. Ela trouxe 5kg de Mombaça e voltou com pulseira de prata. Acho que agora a Rio Verde tem duas donas".
*Na Parte 22 - A Volta para Casa e o Sustão na Porteira: Na volta de Vilhena, na porteira da Rio Verde, uma viatura da PRF parada. O mesmo PRF que prendeu Sabrina em 2023 está lá. E agora? Ele veio prender de novo ou pedir desculpa?*
_Comente "PARTE 22" para saber se o PRF veio para prender ou para pedir perdão na porteira._
Cena da *Parte 21 - A Sogra de Vilhena:*
Cozinha simples de Vilhena, 10h da manhã. Cheiro de alho pendurado e feijão na prateleira.
*Dona Lourdes*, 68 anos, mãe de Texano, do terço todo dia às 18h, que até ontem achava que nora era Paloma, a "fina de salto". Hoje, colocando no pulso de *Sabrina* a pulseira de prata que usou quando casou com o pai de Texano - pulseira que Paloma nunca quis porque "era coisa de velha".
Na mesa, o presente que Sabrina trouxe: *pacote com vestido, saco de 5kg de sementes de capim Braquiária/Mombaça*. Não trouxe perfume, trouxe pasto. Porque quem ama fazendeiro não traz flor, traz semente.
*Texano* atrás, de boné sujo de estrada da BR-364, sorrindo pela primeira vez como menino, vendo a mãe finalmente aceitar que a menina que foi presa inocente na BR-364, absolvida na Revisão Criminal 0823456-77, com contrato de comodato vitalício e cicatriz em J, é a mulher que segura porteira, mede capim com régua e ficou 5h trocando pano de febre de carrapato.
É o momento exato em que Dona Lourdes fala: _"Senta. Se você planta Mombaça e ficou com meu filho na febre, você pode sentar na minha mesa"._
A partir dali, Sabrina tem duas pulseiras: a de couro *S. RIO VERDE* no pulso direito - que ganhou no jantar - e a de prata da sogra no esquerdo.
Fim da Parte 21.