_Sábado, 11h - 5 dias depois da febre - Fazenda Rio Verde - Churrasco de comemoração da lotação do piquete 22
Toda fazenda que se preza, quando lota um piquete rotacionado, faz churrasco.
Texano, já sarado da febre de carrapato, mandou matar um capão, comprou 10 caixas de Brahma e chamou 40 peões da região: gente de Rolim, de Novo Estrela, de Santa Luzia. Chamou também o Dr. Evandro.
Sabrina não queria ir. "Vão falar que sou a gerente que dorme na sede".
Seu Antônio: "Vão falar que você é a mulher que salvou o patrão. Vai, menina. Coloca aquele vestido azul de novo".
Ela foi, vestiu o vestido azul de R$ 189,90, pulseira S. RIO VERDE, bota limpa. Não. Não ficou bem para a ocasião, resolveu ir de calça jeans e blusa.
O churrasco estava no curral. Fumaça, viola, peão contando mentira. Texano estava no centro, com chapéu, assando carne.
Quando viu Sabrina chegando, parou tudo. Pegou o microfone da caixa de som JBL que Seu Antônio emprestou da igreja.
O DISCURSO
"Pessoal, silêncio aí. Quero falar uma coisa".
40 peões pararam. Só o barulho da gordura pingando.
"Há 5 anos essa fazenda só via oficial de Justiça. Perdi 86 vacas para o Luiz da Farmácia. Fiquei 3 dias preso por pensão de um filho que não era meu. Depois, preso dinovo acusado de tráfico por armação da minha ex e do Delegado Augusto. Paloma, me largou falando que eu era pé-rapado. Eu fiquei sozinho aqui com o Seu Antônio e um Massey Ferguson velho que nem liga no frio".
"Há 11 meses, entrou uma menina na porteira, com uma mala de rodinha, com a marca de uma tornozeleira que nem era dela mais. Ela tinha sido presa inocente por causa de uma carona com 12kg. Ela tinha sido absolvida, mas o povo de Rolim continuava chamando ela de presidiária. Eu paguei o advogado dela. R$ 30 mil em 10x de R$ 3 mil no cartão do Seu Antônio. Não foi caridade. Foi raiva de ver o Luiz fazendo com ela o mesmo que a Paloma fez comigo: prender inocente".
"Essa menina, Sabrina, em 6 meses, fez o que agrônomo de R$ 10 mil não fez: dividiu 42 hectares em 42 piquetes, plantou Mombaça, recuperou 86 vacas prenhes que a Justiça me devolveu, e fez a fazenda dar R$ 782 mil de indenização. E mais: arrematou a Hilux do bandido por R$ 130 mil no leilão, dirigiu a Hilux no meio do capim, e mandou a Paloma embora da porteira com salto quebrado".
"E há 5 dias, quando eu tive febre de carrapato de 39,5º, quem ficou comigo não foi minha ex, não foi minha família de Vilhena. Foi ela. Sentada numa cadeira, com um pano frio, das 23h40 às 5h da manhã. Sem cobrar nada. Sem pedir nada".
Ele olhou para Sabrina, que estava vermelha, querendo entrar dentro do cocho.
"Sabrina, eu não tenho anel. Anel é coisa de gente da cidade. Eu tenho uma coisa que vale mais aqui na roça".
Ele tirou do bolso um molho de chaves. Não era chave de Hilux. Era chave da casa sede. Uma chave grande, enferrujada, de 30 anos, da época do pai dele.
"Essa chave era do meu pai. Ele me deu quando eu tinha 18 anos e falou: 'Filho, essa fazenda tem Cláusula de Incomunicabilidade, ninguém toma. Mas o que mantém fazenda de pé não é cláusula, é mulher que não abandona na febre'. Meu pai morreu e eu nunca entendi. Hoje eu entendi".
"Eu quero te pedir, na frente de 40 peões que são testemunha melhor que cartório: você aceita ser dona dessa chave junto comigo? Não como peoa, não como gerente. Como minha namorada oficial, com direito a comodato vitalício do meu coração, que também tem cláusula de incomunicabilidade? E com 10% de tudo que essa fazenda produzir, porque quem trabalha merece? E com direito a dirigir a Hilux quando quiser?"
Silêncio.
Sabrina chorou. Não de vergonha. De reparação.
Ela, que entrou algemada numa viatura da PRF na BR-364, que ficou 8 meses numa cela com 30 mulheres, que foi chamada de "mula" no fórum de Cacoal, agora estava sendo pedida em namoro oficial na frente de 40 peões, com chave de fazenda.
Ela pegou o microfone, com a mão tremendo, mostrando a cicatriz em J.
"Texano, eu aceito. Mas eu também tenho uma condição, que não está no contrato do Dr. Evandro. Eu não quero ser dona da fazenda. Eu quero ser dona da porteira junto com você. Porque quem segura porteira, segura tudo. E eu, que já fui presa inocente, prometo que nunca vou prender você. Só vou cuidar, como cuidei na febre. E eu aceito dirigir a Hilux, mas só se o Seu Antônio for junto, para ensinar".
40 peões gritaram. Um soltou fogos. Outro chorou - o mesmo que tinha sido preso com Texano por pensão.
Seu Antônio gritou: "Pode beijar! Agora pode!"
Texano beijou Sabrina. Primeiro beijo oficial. Na frente do curral, do Massey Ferguson, da Hilux do Luiz que agora era deles, e das 200 vacas escolhidas pra inseminação que agora estavam prenhes.
Dr. Evandro, que filmava tudo, falou: "Vou juntar isso no processo. Prova de união estável com cláusula de amor verdadeiro. O juiz vai ter que aceitar".
E naquela tarde, Rolim de Moura inteira soube pelo WhatsApp dos peões: o fazendeiro que foi preso por pensão e por armação e a menina que foi presa por carona do traficante, agora são namorados oficiais da Fazenda Rio Verde. E a fazenda, que era de um, agora é de dois corações com cláusula de incomunicabilidade para o resto do mundo, mas de comunicabilidade total entre eles.
*Na Parte 21 - A Viagem para Vilhena: Texano leva Sabrina para conhecer a mãe dele, que ainda acha que Paloma é nora. E Sabrina tem que provar que não é presidiária, é zootecnista. E leva de presente o que? Um lindo vestido e a escritura da Rio Verde com cláusula.*
_Comente "PARTE 21" que já escrevemos agora, com a sogra que acha que toda ex-presidiária é bandida._
Cena da *Parte 20 - O Churrasco dos Peões:*
Fazenda Rio Verde, sábado 11h. Churrasco de lotação do piquete 22. Cheiro de carne na brasa, isopor de Brahma, 40 peões de chapéu fazendo roda.
No centro, *Texano de joelho*, de camisa xadrez, sem anel de ouro. Dentro da caixinha de madeira velha, a *chave grande e enferrujada da casa sede*, de 30 anos, que o pai dele deu quando ele tinha 18 anos. A frase do pai: _"O que mantém fazenda de pé não é cláusula, é mulher que não abandona na febre"_.
Na frente, *Sabrina* de macacão jeans, com a pulseira S. RIO VERDE ainda no pulso, mão na boca, chorando. A menina que entrou algemada numa viatura da PRF na BR-364 por causa de 12kg do Luiz da Farmácia, que ficou 8 meses presa inocente, agora sendo pedida em namoro oficial na frente de cartório melhor que qualquer cartório: 40 peões de testemunha.
Ao fundo, o *Massey Ferguson 5710* que não ligava no frio e a *Hilux preta* que foi do bandido e virou deles.
É o momento exato em que Seu Antônio grita lá de trás: _"PODE BEIJAR! AGORA PODE!"_
E Rolim de Moura inteira fica sabendo pelo WhatsApp que o fazendeiro da cláusula de incomunicabilidade e a ex presidiária absolvida em Revisão Criminal agora têm cláusula de comunicabilidade total entre eles.
Fim da Parte 20.