_Quinta-feira, 23h40 - 2 dias depois da briga da porteira - Fazenda Rio Verde
Texano chegou do piquete 9 tremendo. Não era frio. Era febre. 39,5º.
Febre de carrapato. Tristeza Parasitária Bovina pega em gente. O carrapato do boi, quando está infectado com _Babesia bovis_ e _Anaplasma_, pica o peão e dá febre alta, dor no corpo, vômito. Quem é do campo conhece. Quem é da cidade vai para o hospital.
Seu Antônio viu e gritou: "Sabrina! Seu patrão tá arriado!"
Sabrina correu da casa de caseiro para a sede. Texano estava sentado na cama, de camiseta, suado, tremendo, tentando tomar um dipirona.
"Não deixa eu dormir, Sabrina. Se eu dormir com febre alta assim, não acordo".
Sabrina não pensou duas vezes. Ela, que tinha medo de cadeia, não tinha medo de doença de boi. Ela fez o que aprendeu na UNIR.
Primeiro, ligou para o Dr. Evandro: "Dr., ele está com febre de carrapato. Levo no hospital de Rolim ou trato aqui?"
Dr. Evandro, que é advogado mas já foi peão: "Leva em Santa Luzia, faz exame. Se for babesia mesmo, é doxiciclina 14 dias. E não deixa ele sozinho essa noite".
A MUDANÇA
Seu Antônio, com a sabedoria de 58 anos, falou:
"Menina, você não vai ficar indo e voltando da casa de caseiro de madrugada. Você muda para o quarto de hóspedes da sede essa noite. Eu fico aqui na sala, de vigia. Se ele piorar, a gente leva".
Sabrina hesitou. Desde que saiu da cadeia, ela morava sozinha na casa de caseiro. Tinha sua privacidade, seu comodato vitalício. Ir para a sede era atravessar uma porteira invisível.
"Seu Antônio, e se o povo falar?"
"O povo já fala que você é gerente, que dirige Hilux, que mandou a Paloma embora. Deixa falar que você salvou o patrão também".
Ela pegou uma mochila com 2 mudas de roupa e foi.
Texano estava na cama do quarto principal, deitado, com 3 cobertores mesmo com calor de 28 graus. Tremia.
Sabrina entrou, com uma bacia de água fria, pano, e um termômetro de gado - o mesmo que usa para medir febre de bezerro, mas limpo com álcool.
"Sou zootecnista, não enfermeira. Mas febre é febre", ela disse.
Ela molhou o pano e colocou na testa dele. Ele pegou a mão dela.
"Não precisa fazer isso. Você já pagou sua dívida".
"Que dívida, Texano? Você pagou R$ 30 mil de advogado meu em 10x de R$ 3 mil. Eu vou te pagar cuidando de você 10 noites, se precisar. E sem juros".
Ele riu, com febre: "Você está cobrando caro, hein?"
Ela ficou ali, das 23h40 às 3h da manhã, trocando pano, dando água, medindo febre: 39,5... 39,2... 38,8...
Às 2h, Texano delirou de febre: "Sabrina, não me deixa. A Paloma me deixou quando eu fiquei preso 3 dias. Você não me deixa".
Ela respondeu baixo, segurando a mão dele com a pulseira S. RIO VERDE:
"Eu fiquei 8 meses presa inocente por causa de 12 kg que o Luiz jogou no meu colo. Eu sei o que é ser deixada. Eu não deixo ninguém com febre sozinho. Dorme. Eu fico aqui".
Seu Antônio, da sala, fingindo dormir na rede, ouviu tudo. E chorou. Porque há 30 anos, quando o pai de Texano morreu de febre de carrapato também, não tinha ninguém para trocar pano.
5H DA MANHÃ
A febre quebrou. 37,4º. Texano suou a cama inteira.
Sabrina estava dormindo sentada, na cadeira do lado da cama, com a mão dele ainda na dela.
Ele acordou. Viu ela ali. De vestido simples, cabelo bagunçado, com cheiro de água e de cuidado.
Ele não beijou. Ele fez mais: levantou com dificuldade, pegou um cobertor limpo do guarda-roupa e cobriu ela na cadeira.
E falou baixinho, para não acordar:
"Obrigado por não ter medo da minha febre. A Paloma tinha nojo de cheiro de curral. Você tem cheiro de quem cuida de curral".
Às 6h, Seu Antônio fez café e levou na bandeja para os dois. Achou os dois dormindo: ele na cama, ela na cadeira, de mãos dadas.
Tirou foto. Mandou para o Dr. Evandro com a legenda:
"Dr., não precisa fazer contrato de namoro. Precisa fazer contrato de cuidado. Isso aqui já é casamento, só não tem padre".
Naquela manhã, Sabrina não voltou para a casa de caseiro. Texano falou: "Fica no quarto de hóspedes até eu sarar. Depois, você escolhe onde quer ficar. A casa é grande. E tem cláusula de comodato vitalício para os dois, lembra?"
E ela ficou.
Pela primeira vez, a casa sede da Fazenda Rio Verde, que por 5 anos só teve processo e solidão, teve café da manhã com 3 pessoas na mesa, falando de pasto, de febre, e de quem ia dirigir a Hilux para levar Texano no posto de saúde.
*Sem beijo. Sem sexo. Só cuidado. Que é como começa o amor de gente que já foi presa e sabe o valor de não ser abandonada.*
Na Parte 20 - A Alta e o Pedido: Texano sarado leva Sabrina no primeiro churrasco de fazendeiro como namorada oficial. E lá, na frente de 40 peões, ele faz o pedido que Rolim de Moura inteira vai comentar.
_Comente "PARTE 20" para ver o pedido na frente dos peões._
Cena da *Parte 19 - A Febre de Carrapato:*
Quarto principal da Fazenda Rio Verde, 23h40. Texano com 39,5º de febre, suando, tremendo embaixo de 3 cobertores - tristeza parasitária de carrapato. Na porta, Seu Antônio, 58 anos, de chapéu, fingindo vigia mas chorando por dentro, porque há 30 anos o pai de Texano morreu da mesma febre sozinho.
E *Sabrina*, que por 8 meses ficou numa cela com medo de ser abandonada por uma carona com 12kg que não era dela, agora é quem não abandona. De avental, cabelo preso, colocando pano frio na testa do patrão que virou namorado.
Sem beijo. Sem cena de novela. Só cuidado. O pano úmido, o termômetro de bezerro limpo com álcool, e a frase que ela sussurra: _"Eu sei o que é ser deixada. Eu não deixo ninguém com febre sozinho."_
Às 6h da manhã, Seu Antônio tiraria a foto dos dois dormindo de mãos dadas - ele na cama, ela na cadeira - e mandaria para o Dr. Evandro com a legenda: _"Não precisa de contrato de namoro. Isso aqui já é casamento".
Fim da Parte 19.