_19h30 - Casa Sede - Fazenda Rio Verde - A mesma casa que por 5 anos só viu processo, agora tem cheiro de comida
Sabrina tomou banho no banheiro da casa de caseiro. Água fria, porque o chuveiro da sede queimou e Seu Antônio ainda não trocou. Ela olhou no espelho pequeno, trincado.
No pulso, a cicatriz em forma de "J". Ela passou a mão. Lembrou da cela. Lembrou da PRF falando "mão na cabeça". Lembrou de Texano na primeira visita no presídio, levando um livro de Zootecnia e falando: "Quando você sair, você vai contar boi, não grade".
Na cama, em cima do lençol, um saco da Loja Central Modas. Dentro, um vestido azul. Simples. De viscose. R$ 189,90 na etiqueta. Tamanho P. Foi o que ela olhou na vitrine de Rolim no dia que foi assinar a carteira, achando que ninguém viu.
Junto um bilhete com a letra grossa de Texano:
"Não é presente. É uniforme para o jantar da nova gerente da Rio Verde. - T."
Ela vestiu. Pela primeira vez em 2 anos, se sentiu mulher de novo, não "ré 123/2021".
O JANTAR
Na sede, mesa de madeira de 8 lugares, só 2 pratos. Arroz branco, carne de panela que Seu Antônio fez às 14h e deixou na panela de pressão, mandioca e uma Coca de 2 litros.
Texano estava de camisa xadrez nova, azul, que ele comprou em 2019 para ir na audiência sobre a armação do Delegado Augusto e da Paloma e nunca usou. Bota limpa. Perfume barato que Seu Antônio emprestou.
Ele ficou em pé quando ela entrou. Gaguejou.
"Você... você ficou..."
"Fiquei o que?", ela riu, sem jeito.
"Ficou bonita. Mais que as vacas Nelore que eu comprei no leilão".
Foi a cantada mais ruim e mais sincera que ela já ouviu.
Sentaram. Texano serviu ela primeiro. Isso nunca aconteceu na vida dela.
"Sabrina, preciso te falar duas coisas. Uma é de fazendeiro, outra é de homem".
"Fala a de fazendeiro primeiro, que é mais fácil", ela disse, comendo.
"De fazendeiro: a partir de amanhã, você não é mais peoa. Você é gerente de pastagem. Vai ganhar 10% de tudo que aumentar de @ nessa fazenda por causa do seu rotacionado. Está no aditivo que o Dr. Evandro fez. Você assina amanhã".
Ela quase engasgou.
"E a de homem?"
Texano respirou fundo. Levantou. Foi até a gaveta da cômoda velha. Pegou uma caixinha.
Não era aliança. Era uma pulseira de couro, feita à mão, com uma chapa de metal escrita "S. RIO VERDE".
"Quando a Paloma me colocou na cadeia por causa de armação, eu jurei que nunca mais ia confiar em mulher nenhuma. Quando você foi presa por causa da carona do Luiz, eu vi o mesmo filme. E eu pensei: se eu não ajudar essa menina, quem vai? Eu paguei seus R$ 30 mil não por dó. Foi por raiva do Luiz. Mas quando você chegou com essa mala de rodinha e já foi dormir no curral anotando cocho, eu vi que você não é a ex-presidiária. Você é a mulher que eu rezei para aparecer depois que a Paloma foi embora".
Ele colocou a pulseira na mesa.
"Isso não é pedido de namoro. É pedido de permissão para eu tentar te namorar. Sem pressa. Sem fazenda no meio. Se você disser não, você continua aqui com sua carteira assinada, sua casa de comodato vitalício e seu salário de 2 mínimos. Nada muda. Se você disser sim, a gente tenta. Devagar. Do jeito que se doma potro bravo: com calma".
Sabrina chorou. De novo. Mas agora não escondeu a cicatriz. Ela esticou o pulso esquerdo na mesa, mostrando o "J".
"Texano, essa cicatriz não é de arame. É a inicial do meu avô, Jair. Ele morreu e eu fiz com 14 anos com prego quente. Eu escondo porque todo mundo na cadeia achava que era de facção. Eu não tenho nada a esconder de você. Eu aceito tentar. Mas com uma condição: meu passado não entra na sua fazenda. Só meu futuro".
Texano pegou a mão dela. Pela primeira vez, tocou na cicatriz.
"Fechado. Amanhã, 5h, você me ensina a fazer piquete. E eu te ensino a fazer amor do jeito certo: trabalhando do lado".
Ela riu. Ele riu.
Seu Antônio, que estava espiando da janela da cozinha, gritou lá de fora:
"Já pode soltar fogos ou ainda estão no contrato?"
Os dois riram alto. A primeira risada alta da casa sede em 5 anos.
Naquela noite não teve beijo na boca. Teve um acordo de 2 pessoas que já foram presas inocentes, uma por armação, outra por droga de outro, e que agora só querem paz para contar boi junto.
Texano levou ela até a casa de caseiro. Na porta, deu um beijo na testa dela. Cheiro de sal e de recomeço.
*E o namoro mais vigiado de Rondônia começou: sem Instagram, sem post, só com o Massey Ferguson, 42 piquetes e uma pulseira de couro que diz RIO VERDE.*
Na Parte 18: A primeira briga - Quando Sabrina descobre que Texano ainda paga pensão para Paloma e que Paloma conseguiu sair da cadeia e quer voltar porque soube que ele ganhou R$ 782 mil no leilão. E o que Sabrina faz com a Hilux?
_Comente "PARTE 18" que a gente já escreve hoje ainda, com a volta da Paloma na porteira da Rio Verde._
Cena da *Parte 17 - O Jantar da Sede:*
Casa sede da Fazenda Rio Verde, 19h30. Luz de varal amarelinha, janela aberta para o pasto. Na mesa de madeira rústica, a simplicidade que virou luxo: pão, queijo, azeitona, velas acesas e a Coca de 2 litros trocada por uma taça de vinho porque Seu Antônio disse que "jantar de pedido tem que ter vinho".
Texano, de camisa xadrez vermelha nova, entregando para Sabrina, de vestido azul de R$ 189,90 da Loja Central Modas, a pulseira de couro com a chapa *S. RIO VERDE*. Não é aliança. É promessa.
É o momento exato da frase: _"Isso não é pedido de namoro. É pedido de permissão para eu tentar te namorar. Sem pressa. Do jeito que se doma potro bravo: com calma"._
Ela, mostrando o pulso com a cicatriz em "J" do avô Jair, que ela escondeu na cadeia por medo de acharem que era facção, agora estende sem medo.
Lá fora, Seu Antônio espiando da janela, pronto para gritar: "Já pode soltar fogos?"
Fim da Parte 17.