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CRÔNICA POLICIAL - PARTE 16 _A CARONA, A REVISÃO E O CONTRATO DA VIDA

 

_Por Redação Rio Verde - Da porteira para dentro

_Fazenda Rio Verde - KM 12 - Rolim de Moura / Santa Luzia

 

Quem vê Sabrina Souza hoje, de bota, boné da Rio Verde, dirigindo o Massey Ferguson cinquentinha com 600 kg de sal mineral, não imagina que há 11 meses ela contava os dias numa cela do Presídio Feminino de Rolim de Moura.

 

Ela tinha agora 25 anos, ex-acadêmica de Zootecnia da UNIR, seguia de motocicleta para mais uma jornada de emprego na Lanchonete do PostoBR, em Presidente Médice. Na BR-364, km 412, um mero conhecido da Lanchonete - Luiz da Farmácia, o mesmo da fraude das 86 vacas - ofereceu carona: "Tô indo para Médice, bora?".

 

Na Blitz da PRF, o que a lei chama de *Flagrante Forjado e Dolo do Terceiro*. Luiz, ao ver a PRF, tentou jogar no colo dela uma bolsa de viagem. Dentro: 12 kg de cocaína. Na hora, o discurso: "A droga é dela, seu policial, só dei carona".

 

Sabrina foi presa por tráfico - art. 33 da Lei 11.343/06 - 5 a 15 anos. Foi o que o Delegado chamou de "tráfico privilegiado da carona".

 

A REVISÃO QUE MUDOU TUDO

 

Quem tirou Sabrina da cadeia não foi a sorte. Foi Texano.

 

Texano não conhecia Sabrina da UNIR. Conheceu de uma carta vinda do Presídio Feminino de Cacoal, por meia da Policial Penal Vera Shinaider. Sabia que ela não tinha passagem por culpa. Contratou Dr. Evandro, que entrou com *Revisão Criminal - Art. 621 do CPP*, com prova nova: o testemunho da *Dona Cícera*, a senhora que vendia queijos na frente de casa na curva do km 412, e viu quando Luiz deu a carona pra Sabrina, que ela estava sem bolsa. Foi Luiz que colocou a bolsa com o flagrante no banco de traz da caminhonete Hilux preta antes de dar carona pra Sabrina, por conta da Bizz dela que acabou a gasolina.

 

Dona Cícera falou na Justiça: "A menina estava sem Bolsa. Eu vi. Ele falou: 'entra que eu te levo'".

 

Com o depoimento, mais as imagens de câmeras da barraca de Dona Cícera mostrando Luiz dando carona pra Sabrina sem a Bolsa, o Tribunal de Justiça de Rondônia reconheceu *Erro Judiciário e Excludente de Culpabilidade por Inexigibilidade de Conduta Diversa*. Sabrina foi absolvida. O mandado de prisão de Luiz da Farmácia por tráfico agora corre junto com o de estelionato.

 

Dr. Evandro cobrou R$ 30.000,00 de honorários. Não tinha como pagar à vista. Fez como se faz no interior: parcelou em 10x de R$ 3.000,00 no cartão de crédito de Texano. Texano pagou. "Depois você me paga em serviço", ele disse para Sabrina.

 

O CONTRATO QUE NINGUÉM NA REGIÃO JÁ VIU

 

No dia seguinte à soltura, Texano assinou a carteira dela.

 

*Carteira de Trabalho Digital - eSocial:*

Função: Zootecnista / Vaqueira

Salário: 2 salários mínimos - R$ 3.036,00 líquidos - livres de desconto de moradia e alimentação.

Horário: 6h às 11h e 13h às 16h - com hora extra se precisar parir vaca de madrugada.

Benefício: Casa na fazenda, energia, internet, rancho.

 

E uma cláusula que Dr. Evandro redigiu e registrou em Cartório de Títulos e Documentos, que é a mais bonita que já vi em Rondônia:

 

*Cláusula de Comodato Vitalício por Gratidão - Art. 579 do Código Civil:*

"Se a empregada Sabrina Souza trabalhar nesta Fazenda Rio Verde até sua aposentadoria por tempo de contribuição, terá direito a continuar morando, de graça, vitaliciamente, na casa da fazenda, com toda assistência médica, alimentar e de moradia por conta do empregador Texano, em regime de Comodato - empréstimo gratuito - por prazo indeterminado. Este imóvel nunca será vendido enquanto ela morar".

 

A mesma cláusula foi feita para o velho caseiro Seu Antônio, agora com 58 anos, que está na Rio Verde desde que o pai de Texano era vivo.

 

A MANHÃ DO TRATOR E DA PERGUNTA

 

Terça-feira, 6h da manhã. Seu Antônio e Sabrina no Massey Ferguson cinquentinha, carregado de saco de sal proteinado. Ele fez diferente: "Hoje você dirige, menina. Eu vou de carona que minha coluna está doendo".

 

Sabrina, sorrindo, dirigindo aquele trator velho que faz mais barulho que 10 Hilux, foi soltando o sal no cocho 7.

 

Foi aí que Seu Antônio, com a sabedoria de quem já viu 3 gerações naquela fazenda, soltou:

 

"Sabrina... você é uma moça bonita, trabalhadora, honesta. Parece não ter namorado. Não pensa em se casar?"

 

Sabrina quase deixou o trator morrer: "Que isso Seu Antônio! Saí da cadeia tem 11 meses, tô pagando minha liberdade em parcela de 3 mil, quem vai querer casar com ex-presidiária?"

 

Seu Antônio limpou a poeira do chapéu e falou sério:

 

"Minha filha, presidiária você nunca foi. Você foi vítima. O povo aqui sabe. E vou te falar uma coisa que você não sabe: o patrão Texano está solteiro desde que a Paloma colocou ele na cadeia por armação - lembra que játe falei? - e pediu divórcio. Ele ficou 2 anos sozinho, só trabalhando. Ele é um homem sério, honesto, não bebe, não bate, não trai. Merece uma boa moça. E você merece um homem bom. Eu sonhei essa noite com vocês dois casados na capelinha da fazenda".

 

Sabrina ficou vermelha que nem brasa: "Seu Antônio, que sou eu para merecer casar com fazendeiro? Ele tem quase 500 hectares, eu tenho uma condenação anulada e uma dívida de quase 10 mil ainda".

 

E aí Seu Antônio contou o que Texano nunca contaria:

 

"Sabrina, vou te deixar claro, que o Dr. Evandro me contou e o patrão me autorizou a falar se esse dia chegasse. Mesmo que você case com ele, você vai ter todo o conforto do mundo, vai ser dona da casa, vai mandar nos peão. Mas se um dia vocês se largarem, você não terá parte nesta fazenda. Porque esta fazenda foi doada pelo pai dele para ele com *Cláusula de Incomunicabilidade - Art. 1.668 do Código Civil*. Ou seja, não entra em partilha de divórcio. É só dele, e depois dos filhos dele. Isso é para proteger a terra, não é para te ofender. O pai dele colocou isso porque tinha medo de mulher interesseira. Você não é interesseira. Você é a mulher que ele precisa".

 

Sabrina parou o trator no meio do pasto. Desligou. O silêncio só tinha cigarra.

 

"Seu Antônio, eu não quero fazenda. Eu quero paz. Eu fiquei 8 meses numa cela de 12 mulheres por causa de uma carona. O Texano me deu a primeira paz que eu tive. Me deu carteira assinada, me deu casa, pagou meu advogado. Se um dia eu casar, não vai ser por fazenda. Vai ser por gratidão virar amor".

 

Seu Antônio sorriu. Tirou do bolso um papel dobrado. Era um bilhete com a letra de Texano:

 

"Seu Antônio, se o senhor estiver lendo isso com a Sabrina no trator, é porque o senhor teve coragem de perguntar o que eu não tive. Então diga para ela que hoje à noite tem jantar na sede. Só eu e ela. E diga que eu mandei comprar o vestido que ela viu na vitrine da Loja Central Modas em Rolim de Moura. Tamanho P. - Texano".

 

Sabrina leu. Chorou. Pela primeira vez desde a Blitz da PRF, chorou não de medo, mas de ser vista como gente.

 

Às 19h30, na casa sede da Fazenda Rio Verde, com cheiro de arroz e carne de panela que Seu Antônio fez, Texano esperou de camisa xadrez nova. Sabrina desceu do quarto da casa de caseiro com um vestido azul simples, de R$ 189,90, que ela achou que ninguém tinha visto ela olhar.

 

Foi o primeiro jantar. Não teve beijo. Teve o que ela nunca teve: um homem que perguntou "Você quer mais arroz?" e esperou ela responder sem ter medo.

 

*E assim começa, da porteira para dentro, o namoro mais sério que o Vale do Guaporé já viu: entre um fazendeiro que perdeu 86 vacas e ganhou na Justiça, e uma ex-presidiária inocente que perdeu a liberdade numa carona e ganhou uma fazenda para recomeçar.*

 

Na Parte 17 - O Primeiro Beijo no Curral: O dia em que Texano pediu Sabrina em namoro no meio da pesagem do gado, com o Seu Antônio de testemunha e o Dr. Evandro de fotógrafo.

 

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Cena da *Parte 16 - O Trator, o Sal e a Pergunta que mudou tudo:*

6h da manhã, neblina baixa na Fazenda Rio Verde. O velho *Massey Ferguson cinquentinha* vermelho, carregado de sacos de *SAL 30kg*, indo para o cocho.

 

Sabrina de boné verde, dirigindo. Seu Antônio, 58 anos, de chapéu de palha, indo de carona na garupa do trator, não para falar de sal, mas para falar de vida.

 

É o momento exato em que ele diz: _"Sabrina, você é jovem, bonita, trabalhadora... o patrão está solteiro desde que a Paloma... não pensa em se casar?"_

 

Ela segura o volante firme, mas o olhar entrega: vergonha, medo e uma esperança que ela achava que tinha ficado na cela do presídio.

 

Ao fundo, a placa *FAZENDA RIO VERDE*. O sol nascendo por trás, como quem avisa: depois de 8 meses presa por uma carona com 12kg que não era dela, depois da Revisão Criminal com Dona Cícera, depois dos R$ 30 mil parcelados em 10x, agora vem a parte boa - o recomeço com carteira assinada, comodato vitalício e um jantar com vestido novo esperando na sede.

 

Fim da Parte 16.

Werneck Bellini
Enviado por Werneck Bellini em 04/09/2026
Alterado em 08/09/2026
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