Eliozani Miranda Costa
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CRÔNICA POLICIAL - PARTE 8: O PRIMEIRO DIA - O CHEIRO DO GADO DE VOLTA

 

A cela acorda às 5h com barulho de chave. A roça acorda às 4h30 com cheiro de galinha.

 

Sabrina acordou às 4h15 na Fazenda Rio Verde, 12 km de Rolim de Moura, sentido Santa Luzia d'Oeste. Não precisou de despertador. Sete meses presa não apagaram 24 anos de acordar para tirar leite antes de pegar no turno da Lanchonete do Posto BR, no trevo da 429 com a 364, em Presidente Médici. O corpo tem memória de trabalhador.

 

Só que dessa vez, ela não acordou com medo. Acordou com cheiro de bolinho de chuva.

 

Seu Antônio, 57 anos, peão desde os 14, chapéu encardido de suor honesto, já tinha passado o café no coador de pano e fritado bolinho. Peão velho que está perto de se aposentar e que vivia sozinho cuidando de uma fazenda que parou de dar leite só para dar descanso para ele.

 

"Senta, menina. Come. Hoje o serviço é leve", disse Seu Antônio.

 

Sabrina, de botina emprestada que o Texano comprou na Agro Norte, comeu três bolinhos. Depois, sem precisar mandar, pegou o balde de milho e foi jogar para as 30 galinhas caipiras. Depois, quirela para os quatro porcos. Fazia tudo cantando baixinho, um modão antigo que a mãe dela cantava no sítio da Linha 114.

 

Texano acordou às 5h10. Tomou o café de Seu Antônio - café forte, quase preto - e foi para o galpão. No caminho ouviu a frase que fez ele ter certeza de que não errou na carta:

 

"Não precisa fazer força Seu Antônio, deixa que eu pego sozinha."

 

Sabrina estava tentando levantar um saco de sal mineral de 25 kg para colocar na carretinha do Massey Ferguson Cinquentinha. Sacola rasgada, sal caindo. Ela puxando sozinha.

 

Texano sorriu. Não era conversa fiada de presa querendo advogado de graça. Era peoa mesmo.

 

"Bom dia Seu Antônio. Bom dia Sabrina!", cumprimentou entusiasmado. Estava feliz. Pela primeira vez desde que o Delegado Augusto e a Paloma armaram para ele e ele ficou 9 meses no presídio de Rolim, ele estava feliz de manhã.

 

A Fazenda Rio Verde não é latifúndio. São 200 alqueires, hoje só com 800 cabeças de Nelore de corte. Texano tinha parado com leite há dois anos justamente para não matar Seu Antônio de trabalhar. Ordenha todo dia, chuva, sol, sem folga, não é para velho.

 

Mas naquela manhã, vendo Sabrina jogar sal no cocho com uma vontade que há muito tempo não via, Texano pensou alto:

 

"Seu Antônio, com a Sabrina aqui, acho que vou separar umas 200 vacas mais novas. Vamos voltar com a inseminação. O que o senhor acha?"

 

Seu Antônio, que tinha idade para ser pai de Sabrina, olhou para ela e respondeu com olho brilhando:

 

"Patrão, com essa menina aqui, eu trabalho mais 10 anos. Ela tem a força da minha filha que morreu e a vontade que eu tinha com 20."

 

Depois da salga, Seu Antônio pegou a Bros 160 vermelha, barulhenta, e foi tocar os animais para o curral. Sabrina e Texano ficaram no terreiro.

 

Texano estava no celular, lendo uma crônica do Recanto das Letras, tentando parecer desinteressado.

 

Seu Antônio voltou buzinando:

 

"Patrão, o entregador da Agropecuária Agro Norte trouxe o arreio novo do senhor. Deixou no galpão."

 

Texano nem levantou a cabeça:

 

"Tá bom Seu Antônio, mas o arreio novo não é meu. É da Sabrina. Pode levar ele pro curral. E a égua dela é a Araponga."

 

Silêncio.

 

Sabrina travou.

 

Araponga era a égua mais mansa, mas também a mais bonita da fazenda. Uma égua alazã de 4 anos, rédea macia, que Texano não emprestava nem para o irmão.

 

"Pra mim?", ela perguntou.

 

"Para trabalhar você precisa de arreio bom e de animal bom. Não vai trabalhar com arreio remendado do Seu Antônio não", disse Texano, sem olhar, mas com voz de patrão que já é quase pai.

 

Os três selaram os animais no curral. Seu Antônio na sua mula Baia velha. Texano no seu cavalo Preto. E Sabrina na Araponga, com arreio novo de couro marrom, ainda cheirando a novo, com as iniciais S.S. gravadas - Sabrina Souza.

 

Saíram para o pasto, no sistema de rodízio de piquetes. O sol das 7h30 de Rondônia já queimando. Três cavaleiros em fila.

 

Na frente, Seu Antônio, o velho que achou uma filha.

No meio, Sabrina, a presa que achou uma fazenda.

Atrás, Texano, o ex-preso que, pela primeira vez, desde a armação da Paloma e do Delegado Augusto, achou que talvez ainda dava para confiar em alguém.

 

E enquanto trocavam 30 bois do Piquete 3 para o Piquete 4, Sabrina, em cima da Araponga, chorou. Mas não de tristeza.

 

Chorou porque, depois de 7 meses ouvindo "Cadeia!", ela ouviu de novo o que mais gostava de ouvir:

 

"Abre a porteira, Sabrina!"

 

Ela era peoa de novo.

 

Essa é a imagem do recomeço que a justiça nunca fotografou:

*07h30 - FAZENDA RIO VERDE - 12 KM DE ROLIM DE MOURA*

 

Da esquerda para a direita:

 

*Seu Antônio*, 57 anos, na mula Baia velha, chapéu de palha gasto de quem já criou três gerações de bezerro. O velho peão que ia se aposentar sozinho, agora com olho de pai que achou uma filha de novo.

 

No meio, *Sabrina*, na *Araponga*, a égua alazã mais bonita e mansa da fazenda, com *arreio novo de couro marrom* com as iniciais S.S., que o Texano mandou trazer da Agro Norte. Cabelo trançado, chapéu marrom, jaqueta de couro. A menina que há 48 horas dormia no chão da cela feminina, agora com rédea na mão, chorando por dentro porque ouviu de novo: "Abre a porteira, Sabrina!"

 

Na direita, *Texano*, no cavalo Preto, de chapéu e camisa preta, olhando para a frente. O patrão que ficou 9 meses preso por causa da armação do Delegado Augusto e da Paloma, e que agora, pela primeira vez, voltou a acreditar que gente trabalhadora ainda existe.

 

Atrás deles, a placa torta: *FAZENDA RIO VERDE - ROLIM DE MOURA - RO*, o Massey Ferguson Cinquentinha vermelho com a carretinha de sal, e no fundo o gado Nelore branco no nevoeiro da manhã.

 

Não é só troca de gado de piquete em sistema de rodízio.

 

É a troca de destino.

 

Fim da Parte 8.

Werneck Bellini
Enviado por Werneck Bellini em 03/09/2026
Alterado em 08/09/2026
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