Eliozani Miranda Costa
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CRÔNICA POLICIAL - PARTE 7: A ROTA DA LIBERDADE - DO PORTÃO DO PRESÍDIO AO CURRAL DE ROLIM

 

O portão do Presídio Feminino de Cacoal range igual porteira velha. Às 17h42 de uma quinta-feira, rangeu para fora e não para dentro. Sabrina saiu com a mesma calça jeans desbotada que entrou 7 meses antes, uma sacolinha plástica da Cantina com um sabonete Phebo pela metade, e uma procuração assinada que virou alvará.

 

Texano esperava encostado na Hilux branca. Não a preta da onça. A branca de trabalho, com barro nos pneus. Desde que saiu da cadeia, montada pelo Delegado Augusto e pela ex-escrivã Paloma, Texano não pôs mais o pé no Bar Recanto dos Peões. Parou de beber. Não por promessa de santo. Por nojo de fofoca. Fofoca prende mais que algema em cidade pequena de Rondônia.

 

Ele olhou para Sabrina. 24 anos, magra da comida do presídio, mas com os olhos vivos de quem foi criada na roça, tirando leite às 4h da manhã. Formosa? Sim. Mas Texano não olhou com olho de homem de bar. Olhou com olho de fazendeiro que precisa de peão honesto. E, talvez, pela primeira vez desde que Paloma foi embora, com olho de homem que quer tentar de novo.

 

"Vamos?", ele disse.

 

Sabrina, ainda com medo de dever, já começou a fazer conta:

 

"Seu Texano, eu preciso saber. Quanto ficou o senhor e o Dr. Evandro? Quanto vai ser meu salário? Preciso calcular quanto tempo vou ter que trabalhar para pagar e preciso avisar meus pais que vou para Rolim de Moura."

 

Texano sorriu. O primeiro sorriso dela fora da cela.

 

"Não se preocupe, depois tratamos disso. Onde você quer ir agora antes de irmos para a fazenda?"

 

Ela respondeu com outra pergunta, porque presa não aprende a pedir, aprende a agradecer perguntando:

 

"O senhor pode me levar na casa dos meus pais? Preciso pegar umas roupas e calçados. Fica lá perto da curva da Dona Cícera, em Presidente Médici."

 

"Com certeza. É só me guiar."

 

A BR-364 naquele horário é um espelho. Sol baixo, carreta atrás de carreta. A Hilux branca fez o caminho inverso da viatura da PRF. Saiu de Cacoal sentido Presidente Médici, km 412. O mesmo trajeto que, 7 meses antes, terminou em blitz, bolsa jogada e algema.

 

Mas Texano, homem sistemático, fez questão de não ir direto. Parou antes.

 

"Dona Cícera", ele gritou da porteira, "a senhora vai ter que aceitar meu obrigado de novo."

 

Na venda de queijo da curva perigosa, a cena foi de novela das 6, mas sem câmera da Globo. Dona Cícera, de avental, com as mãos cheias de coalhada, quando viu Sabrina descer da Hilux branca, largou tudo e gritou:

 

"Menina! Você saiu!"

 

Sabrina correu. Abraçou. As duas choraram. Lágrima de gente da roça que não tem vergonha de chorar. Dona Cícera chorou porque foi até o Fórum de Cacoal, entrou na sala de videoconferência, com medo de juiz, e disse a verdade: "ela estava sem bolsa". E a verdade soltou uma inocente.

 

Até Texano, que é de pouca lágrima, ficou com o olho marejado.

 

"Obrigado, Dona Cícera. A senhora não foi testemunha. A senhora foi justiça", disse Texano, e comprou 6 queijos: 3 para levar para a fazenda e 3 para presentear a mãe de Sabrina. Pagou R$ 90,00 e ainda deixou mais R$ 50,00 de gorjeta, que Dona Cícera não queria aceitar.

 

Seguiram mais 3 quilômetros na vicinal de chão, Linha 114, entrada do Sítio Boa Esperança. O sítio do Seu Valdemar e da Dona Lourdes, pais da Sabrina.

 

O portão de arame farpado. O cachorro caramelo latindo. A mãe na porta, com a mão na boca, sem acreditar.

 

Mãe não pergunta quanto tempo a filha ficou presa. Mãe abraça. Lourdes abraçou Sabrina por 5 minutos, cheirando o cabelo dela, como se conferisse se era a mesma filha que saiu para trabalhar na lanchonete do Posto BR.

 

Seu Valdemar, homem de 61 anos, de chapéu de palha, apertou a mão de Texano forte, mão de quem tira leite.

 

"O senhor tirou minha filha da cadeia. Deus abençoe o senhor."

 

Texano respondeu, sem jeito: "Não fui eu, foi a Dona Cícera. E o Dr. Evandro. Eu só fiz o que qualquer homem faria."

 

Mentira. Não é qualquer homem que paga advogado para ex-presidiária que promete pagar com serviço de peão.

 

Sabrina entrou no quartinho dela, pegou duas calças, três blusas, um par de botinas de serviço e a Bíblia que ganhou da avó. Colocou tudo na mesma sacolinha plástica da cadeia.

 

Na despedida, Dona Lourdes colocou os 3 queijos que Texano tinha comprado na geladeira e disse: "Vocês vão almoçar domingo aqui, antes de ir para a fazenda de verdade."

 

Já era noite quando a Hilux branca pegou a BR-364 de novo, agora sentido Cacoal - Rolim de Moura. 80 quilômetros de escuridão, com neblina baixa no trecho de Santa Luzia.

 

Sabrina dormiu no banco do carona. Pela primeira vez em 7 meses, dormiu sem ouvir o barulho de tranca de cela. Dormiu com a janela aberta, sentindo o cheiro de pasto molhado.

 

Texano dirigia olhando de vez em quando para o lado. Não com maldade. Com cuidado. Ele que tinha jurado nunca mais confiar em mulher depois de Paloma, estava levando uma menina de 24 anos, que conheceu por carta, para morar na fazenda dele.

 

Chegaram na Fazenda Rio Verde, a 12 km de Rolim de Moura, às 22h14. O peão caseiro, Seu Antônio, acendeu a luz da varanda.

 

"Patrão, chegou?"

 

"Chegou. Antônio, essa é a Sabrina. Vai trabalhar com a gente. Arruma o quarto da frente para ela, o que tem banheiro."

 

Sabrina desceu da Hilux, pisou na terra vermelha da fazenda, olhou para o curral iluminado pela lua, para as 800 cabeças de gado que Texano tinha, e para a casa simples, mas limpa.

 

Ela não perguntou de novo quanto devia. Entendeu que a conta, ali, não era de dinheiro.

 

Era de recomeço.

 

E Texano, que desde a prisão armada pelo Delegado Augusto não pisava em bar e não bebia, naquela noite abriu uma Coca-Cola de 2 litros na varanda da fazenda e brindou com Sabrina:

 

"Bem-vinda. Aqui ninguém joga bolsa em ninguém. Aqui a gente trabalha."

 

Na curva do km 412, Dona Cícera fechou a venda de queijo. No presídio de Cacoal, a Cela 3 ficou com uma cama vazia. E na Fazenda Toca da Onça, o Luiz da Farmácia, que ainda não sabia do mandado de prisão preventiva assinado pelo desembargador, dormia tranquilo. Por enquanto.

 

E essa é a imagem que a PRF não registrou na ocorrência, mas que vale mais que qualquer B.O.:

*BR-364 KM 412 - PRESIDENTE MÉDICI-RO - 18h07 - O ABRAÇO*

 

A placa de madeira torta que todo mundo que passa na BR conhece: *BR-364 KM 412 - PRESIDENTE MÉDICI - RO*.

 

A banca da Dona Cícera: *QUEIJO ARTESANAL - DONA CÍCERA*, balança de feira, queijos embrulhados com barbante.

 

E o abraço: Sabrina, ainda com a blusa cinza de *SAÍDA LIBERDADE - 2024*, chorando no ombro de Dona Cícera, de blusa de Nossa Senhora Aparecida. As duas com lágrima no rosto - lágrima de gente que não precisa de sentença para saber quem é inocente.

 

Atrás, Texano, de chapéu gasto, segurando 6 queijos que comprou - 3 para a fazenda em Rolim de Moura e 3 para a mãe da Sabrina, a Dona Lourdes. Sorriso de quem fez justiça sem precisar dar um tiro.

 

Foi esse queijo, esse abraço e esse testemunho que custou uma passagem de ônibus até o Fórum de Cacoal que soltou Sabrina e que vai prender o Luiz da Fazenda Toca da Onça.

 

Porque em Rondônia, a curva do km 412 não é perigosa por causa do asfalto. É perigosa para quem mente - porque tem sempre uma Dona Cícera vendo tudo da janela da cozinha.

 

Final da Parte 7.

Werneck Bellini
Enviado por Werneck Bellini em 02/09/2026
Alterado em 08/09/2026
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