O Presídio Feminino de Cacoal tem muros altos, mas tem uma coisa que passa por cima deles sem pedir autorização: carta.
Foi a Policial Penal Vera Shinaider, com autorização do Diretor de Segurança - porque ali tudo é com autorização, até esperança - que levou o envelope amassado, escrito à mão com caneta BIC azul, para fora da cela 3.
Destinatário: Texano. O ex da Paloma. O homem que Paloma jurou que era bruto, que era grosso, mas que todo mundo na BR sabe que é honesto até doer no bolso.
Sabrina escreveu sem confiar em Paloma. Se confiasse, a carta nunca sairia. Paloma ainda defende o Augusto. Ainda acha que Texano foi o vilão.
A carta dizia assim, com letra de quem estudou pouco mas sofreu muito:
_"Seu Texano, o senhor não me conhece. Eu me chamo Sabrina, eu tô presa aqui em Cacoal com a sua ex-esposa Paloma. Eu escuto ela falar do senhor todo dia. Ela fala arrependida, fala que o senhor era trabalhador. Eu tô presa inocente. Não sou traficante. Eu era atendente da Lanchonete do Posto BR da 364, em Presidente Médici. Minha moto ficou sem gasolina no km 412, na curva da Dona Cícera. O seu Luiz da Fazenda Toca da Onça me deu carona. A bolsa não era minha. Ele jogou pra mim na blitz da PRF no entroncamento da 429. Eu tô aqui há 7 meses. Eu imploro ajuda. Se o senhor pagar advogado pra me tirar, eu prometo pagar com serviço. Eu fui criada na roça, seu Texano. Eu sei tirar leite, eu sei lidar com gado, sei dirigir trator, sei fazer cerca, sei fazer qualquer serviço de peão. Eu não tenho medo de trabalho. E tem testemunha: Dona Cícera, da curva do km 412, onde eu deixei a moto. Ela viu que eu tava sem bolsa nenhuma."_
Assinado: _Sabrina._
Texano leu a carta na varanda da fazenda dele, de chapéu, tomando tereré. Quando leu o nome *FAZENDA TOCA DA ONÇA* e *Luiz da Farmácia de Nova Brasilândia d'Oeste, que mora em Rolim de Moura*, a mão dele tremeu. Não de pena. De memória.
Foi em 2021. Texano, que sempre comprou gado na região, fez um negócio grande. Comprou 86 cabeças de Nelore de um tal Luiz da Farmácia. Nome conhecido em Nova Brasilândia. Tinha farmácia na cidade, fazenda na linha 25. Fechou negócio na sexta, pagou à vista - R$ 298 mil no Pix, na época. Ficou de buscar na segunda-feira com os caminhões.
Segunda-feira, 6h12 da manhã, telefone toca.
"Texano? É o Luiz da Toca da Onça. Rapaz, aconteceu um trem feio aqui. Acabei de sair da Delegacia. Roubaram teu gado de madrugada. Levaram tudo. O Geremias, meu peão, que me avisou agora cedo. Tinha rastro de caminhão na frente do curral."
E o roteiro que Texano nunca engoliu:
O curral com embarcador fica na frente da fazenda, colado na sede, na beira da estrada. A casa do peão Geremias - um cara mal-encarado, de pouca conversa, que morava sozinho - fica lá no fundão, a 800 metros da sede, longe do corredor do gado. Como ele não ouviu 86 bois berrando, caminhão manobrando, porteira batendo?
A Polícia Civil de Nova Brasilândia foi no local. Investigação frajota, como o povo chama. Ouviram o Geremias. Ele disse: "dormi pesado". Viram rastro de pneu de caminhão truque. E ficou por isso mesmo. B.O. arquivado. Prejuízo: todo do Texano. Luiz da Farmácia ficou com o dinheiro e com o gado, que, segundo os vaqueiros da região, nunca saiu da fazenda - só mudou de pasto.
Texano nunca provou. Engoliu calado. Mas nunca esqueceu o nome: *Toca da Onça*.
Agora, 4 anos depois, o mesmo nome, na mesma carta, de uma menina presa inocente.
Texano dobrou a carta, colocou no bolso da camisa, entrou na Hilux branca e foi direto no escritório do Dr. Evandro, advogado dele em Cacoal.
"Precisamos libertar essa moça", disse, jogando a carta na mesa.
O advogado leu duas vezes. Sublinhou uma frase com marca-texto amarelo: _"Dona Cícera, da curva do km 412, onde eu deixei a moto. Ela viu que eu tava sem bolsa nenhuma."_
"Texano, aqui tá a chave. Isso não é tráfico, é flagrante forjado. Se essa Dona Cícera testemunhar que a Sabrina empurrou a moto sem bolsa, que ela deixou a moto na casa dela e entrou na Hilux só com a roupa do corpo, a gente derruba a materialidade. A bolsa já estava no carro. Isso é Revisão Criminal na certa. E mais: se esse Luiz é o mesmo da Toca da Onça, a gente não vai só soltar a menina. A gente vai prender o traficante."
Na manhã seguinte, 5h da manhã, Texano estava na curva do km 412, BR-364, Presidente Médici.
Bateu palma na casa de tábua da Dona Cícera, 67 anos, viúva, que vende queijo na beira da BR.
"Dona Cícera, a senhora lembra da Sabrina, da lanchonete, que deixou a Biz aqui sem gasolina uns meses atrás?"
"Lembro, sim, senhor. Coitada. Chegou suada, empurrando a motinha. Deixou aqui. Disse que o Seu Luiz da Hilux preta da onça tinha ajudado ela. Ela tava só de calça e blusa, sem bolsa, sem nada. Só com a mochilinha da lanchonete."
"A senhora jura isso na frente do juiz?"
"Juro na Bíblia, nos meus filhos e até no delegado, se precisar. Aquela menina é inocente, moço. Ela só ficou sem gasolina."
Texano voltou para Cacoal com o depoimento gravado em vídeo no celular.
Na cela 3, Paloma ainda contava a mesma história de arrependimento. Sabrina, pela primeira vez em 7 meses, dormiu sorrindo.
Ela não sabia, mas a carta que ela escreveu por desespero tinha encontrado o único homem em Rondônia que tinha, ao mesmo tempo, motivo, raiva e dinheiro para tirar ela da cadeia e para finalmente fazer o Luiz da Farmácia pagar.
Não pelo gado que ele roubou de Texano. Mas pelo flagrante que ele jogou em cima de uma menina que só queria ir trabalhar.
O troco, agora, vinha a juro e correção monetária - e com testemunha: Dona Cícera, da curva do km 412.
Fim da Parte 5.