*O EVANGELHO DA BOA VONTADE*
Nem sempre é o feito que salva o mundo,
às vezes é só o gesto de levantar.
Não é a mão que empurra a moto no fundo,
é a intenção de parar, de voltar.
Porque tem gente que passa e finge que não vê,
tem gente que vê e acelera mais,
tem gente que conta que o tanque secou,
e tem o Luiz que parou atrás.
Não, não falo daquele Luiz da Hilux preta,
daquele da onça no vidro traseiro.
Falo do Luiz que mora em cada esquina,
que ainda carrega o Brasil verdadeiro.
Falo do que para na BR-364,
quando vê a Biz falhada no acostamento,
que não pergunta se vai ganhar troco,
que oferece a sombra e o alento.
Muitas vezes, meu amigo, o que gera bom efeito
nem é o ato de fazer em si,
mas o ato de demonstrar: "eu estou aqui",
"conte comigo, pode ir, eu aceito".
É o Rodrigo da lanchonete que diz:
"calma, depois eu levo a gasolina",
é a Dona Cícera que abre o portão:
"deixa a moto aqui, menina".
É o caminhoneiro que paga um café
para o outro que ficou sem dinheiro,
é o frentista que empresta a chave,
é o vizinho que vira pedreiro.
São eles, os anônimos da boa vontade,
que nunca aparecem no jornal da cidade,
não tem nome em placa de fazenda,
não tem Hilux com adesivo de vaidade.
São os que ajudam a empurrar a moto,
mesmo sem força no braço,
os que dividem o pouco que têm,
os que oferecem o seu abraço.
Quantos Luízes bons existem por aí?
Quantos param sem que a gente acene?
Quantos veem uma moça na estrada
e pensam: "ela precisa, eu vou, eu venho"?
É essa gente que sustenta o país,
não são os espertos de distintivo e farda,
são os que, quando o outro vacila,
estendem a mão sem pedir nada em guarda.
Por isso, hoje, essa poesia extensa
não é para o esperto, é para o gentil,
para quem entende que a maior recompensa
é ver o outro seguir, tranquilo.
Homenagem a quem para na estrada,
a quem pergunta: "precisa de ajuda?",
a quem oferece carona sem interesse,
a quem nunca deixa a porta trancuda.
Homenagem a quem divide o pão,
a quem ensina sem cobrar,
a quem, mesmo cansado, diz:
"deixa que eu vou te levar".
Porque no fim, na balança da vida,
quando Deus for contar nossa história,
Ele não vai medir o que fizemos de grande,
mas quantas vezes tivemos boa memória.
De lembrar que já ficamos sem gasolina,
de lembrar que já precisamos de mão,
de lembrar que um dia, na BR da vida,
também ficamos a pé, no chão.
Viva o homem da boa vontade!
Viva a mulher que não vira as costas!
São vocês que, com um gesto simples,
fazem a vida valer a nossa aposta.
Que nunca nos falte quem pare,
que nunca nos falte quem empurre,
que nunca nos falte, nessa estrada dura,
quem diga: "pode deixar, eu ajudo, eu juro".