Eliozani Miranda Costa
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CRÔNICA POLICIAL - PARTE 4: A CONFISSÃO DA CELA 3 E O VENENO DA TOCA DA ONÇA

 

_Cacoal, Presídio Feminino. Na cela onde o arrependimento tem cheiro de desinfetante barato, duas mulheres dividem a mesma beliche e duas histórias opostas: uma que armou demais e perdeu tudo, e outra que não armou nada e perdeu tudo do mesmo jeito.

 

Paloma não cala mais. Depois que conseguiu o Termo de Convivência Marital com o ex delegado Augusto e garantiu a visita íntima de sexta-feira, ela parece ter ganhado um novo vício: falar.

 

Na cela 3, de 8 metros quadrados com 6 presas, ela conta e reconta, como quem reza um terço às avessas, a engenharia da queda.

 

"Eu tinha tudo, Sabrina. Eu era escrivã. Eu tinha um marido trabalhador, o Texano. Bruto, mas honesto. Trabalhava com gado, não bebia, me sustentava. E eu inventei que ele tinha me agredido numa blitz. O Augusto forjou tudo no Recanto dos Peões. A gente queria a fazenda. Eu pedi o divórcio achando que ia levar metade. E a gente perdeu. A cláusula de incomunicabilidade... o velho que doou a terra pro Texano foi mais esperto que nós dois juntos, que se achavam os espertos da Delegacia. Agora eu não tenho marido, não tenho distintivo, não tenho fazenda. Só tenho um amante que é culpado de eu estar aqui, e que eu tenho que visitar de Van algemada toda sexta. Que depravação."

 

Paloma chora sem lágrima, aquele choro seco de quem já chorou tudo.

 

E quem ouve tudo, sempre atenta, sem interromper, é Sabrina. 24 anos, morena, atendente da Lanchonete do Posto BR Petrobras, no entroncamento da BR-364 com a BR-429, em Presidente Médici. Presa inocente. Ou quase.

 

A história de Sabrina não começou com ambição. Começou com gasolina. Ou com a falta dela.

 

Quem passa na BR-364 toda semana conhece o Luiz. Mais de 50 anos, de Rolim de Moura. Cordial, de boné da John Deere. Toyota Hilux preta, levantada, imponente, com aquele adesivo que não dá pra não ver: a cabeça de uma onça pintada ocupando todo o vidro traseiro e embaixo, em letras garrafais: *FAZENDA TOCA DA ONÇA*. Dizem que tem fazenda em Nova Brasilândia e arrendamento em Jaru. Todo dia de viagem ele para na lanchonete da Sabrina, toma um café preto, cumprimenta os caminhoneiros, paga e vai embora. Freguês antigo.

 

Numa manhã de terça, Sabrina saiu atrasada de casa. Morava num ramal a 9 km antes da lanchonete, sentido Cacoal - Presidente Médici. Honda Biz 125 vermelha, tanque na reserva. Ela jurou que dava pra chegar. Não deu.

 

A moto morreu no acostamento, bem na curva do km 412. Ela ficou ali, de calça da lanchonete, empurrando a Biz no sol. Não deu sinal. Não precisou.

 

Luiz vinha mais cedo que o normal. Viu a moça, reconheceu o uniforme da lanchonete, diminuiu. Passou, olhou no retrovisor, pensou: "não é atoa que tá parada". Engatou ré na Hilux. Parou.

 

"Precisa de ajuda, filha?"

 

Era a Sabrina, sem gasolina. Ela pediu: "Seu Luiz, me ajuda só a empurrar a moto até a casa da Dona Cícera ali, pra não deixarem roubar na rodovia? Depois o Rodrigo leva gasolina pra mim quando o movimento baixar."

 

Ele ajudou. Empurraram juntos a Biz por 200 metros até o terreiro da casa. Suor, poeira. Gentileza.

 

Na volta, na Hilux, Sabrina viu uma bolsa de viagem preta, grande, no banco de trás. Para puxar assunto, por cortesia, perguntou:

 

"O senhor tá viajando a passeio ou a trabalho?"

 

"Rolim, filha. Tô vindo da fazenda, indo pro arrendamento de Jaru", respondeu Luiz, dirigindo com uma mão só no volante.

 

Ele perguntou da vida dela, ela contava que queria fazer curso de atendente de farmácia, quando, quase no entroncamento da 429, no início da pista dupla, o giroflex.

 

Blitz da PRF. Operação Protetor.

 

"Encosta. Desce do veículo. Documento."

 

Revista. E a bolsa.

 

Quando o policial abriu o zíper, o cheiro forte subiu. Não era roupa. Eram 18 tabletes de pasta base, embalados em fita amarela, com o símbolo de golfinho. Quase 15 quilos de cocaína pura.

 

"De quem é essa bolsa?", gritou o PRF.

 

Sabrina gelou. Antes que ela abrisse a boca para dizer "não sei, não é minha, eu só peguei carona", Luiz, o cordial freguês do café, o dono da Toca da Onça, respondeu com uma firmeza de quem já tinha ensaiado:

 

"A bolsa é dela, senhores. Eu apenas dei uma carona para a moça que estava com a moto quebrada na pista. Podem perguntar para ela."

 

Foi o segundo em que a vida de Sabrina acabou.

 

Voz de prisão para os dois. Conduzidos para a Delegacia de Presidente Médici. Na triagem, o delegado de plantão, que conhecia Luiz de vista das festas de agronegócio de Rolim, ouviu o depoimento. Luiz manteve: "É dela". Sabrina chorava: "Eu nunca vi essa bolsa, eu só pedi pra empurrar minha moto". Não havia câmera na Hilux. Não havia testemunha. Havia uma bolsa no banco de trás e um homem que sabia falar.

 

O delegado, seguindo a lógica fria do flagrante, prendeu Sabrina em flagrante por tráfico. Luiz foi ouvido e liberado como "testemunha e vítima de boa-fé" que deu carona. O inquérito foi remetido.

 

Sabrina está há 7 meses no Presídio Feminino de Cacoal. Responde por tráfico, artigo 33. O Luiz nunca mais apareceu na lanchonete. A Hilux com a onça nunca mais parou para tomar café. O arrendamento em Jaru, segundo a investigação paralela que a defesa de Sabrina tenta levantar, nunca existiu. Era rota.

 

Na cela 3, Paloma termina sua ladainha e olha para Sabrina:

 

"E você? O que você fez pra estar aqui?"

 

E Sabrina, com os olhos marejados, responde o que Paloma demorou meses para entender:

 

"Eu não fiz nada. E foi por isso que eu vim parar aqui. Você armou demais, eu não armei nada. E no final, a cadeia é a mesma."

 

Duas mulheres. Uma que tentou tomar a fazenda de um homem honesto e perdeu. Outra que confiou num homem que dizia ter fazenda e perdeu a liberdade. No Presídio de Cacoal, o arrependimento e a inocência dividem o mesmo colchão de espuma.

 

Fim da Parte 4.

Werneck Bellini
Enviado por Werneck Bellini em 02/09/2026
Alterado em 08/09/2026
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