Eliozani Miranda Costa
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CRÔNICA POLICIAL - PARTE 3: A CARTA DO XADREZ 5 - O AMOR NA CADEIA

 

_Rolim de Moura / Cacoal - O amor que começou numa blitz forjada no Recanto dos Peões, agora tinha grades, algemas e um carimbo de "visita íntima".

 

Depois da queda, o silêncio.

 

O ex delegado Augusto e a ex escrivã Paloma, que um dia dividiram plantões, viaturas descaracterizadas, e a fria engenharia de uma prisão ilegal contra o vaqueiro Texano, agora dividiam apenas o mesmo número de processo: condenados por abuso de autoridade, fraude processual, falsidade ideológica e associação criminosa para fins de vantagem sexual e patrimonial. Perda da função pública decretada. Distintivo recolhido. Nome no Diário Oficial da vergonha.

 

Augusto foi para a Penitenciária Regional de Rolim. Paloma, para o Presídio Feminino de Cacoal. A estratégia do divórcio relâmpago de Paloma para ficar com a fazenda do Texano tinha ruído - a cláusula de incomunicabilidade da doação salvou o vaqueiro e deixou Paloma sem um alqueire. O delegado que a abandonou quando soube que ela ficaria sem nada, agora a reencontraria no mesmo lodo.

 

E foi na cela 7, Ala B, que a solidão mordeu Augusto.

 

Policial que prende muito, quando é preso, sofre em dobro. Ninguém conversa. Os agentes o chamam de "doutor" com ironia. À noite, o eco do portão batendo lembra a sirene que ele mesmo acionava. Foi aí que a mente do delegado, sempre criativa para o mal, voltou a trabalhar - não para fugir, mas para amar. Ou para possuir de novo.

 

Ele sabia: Paloma também estava só. Mulher, ex-polícia, acusada de armar para um trabalhador, na cadeia feminina não tem vez. É chamada de "Pereba" pelas outras.

 

Augusto então fez o que sempre fez: usou o sistema.

 

Toda terça e quinta, um grupo de irmãos da Assembleia, do projeto "Resgatando Almas no Cárcere", entrava nos dois presídios com violão, Bíblia e pão com mortadela. Entre eles, o Irmão Valdir, pedreiro de 62 anos, analfabeto funcional, mas com um coração do tamanho da BR-364. Ele era o carteiro de Deus.

 

Augusto escreveu à mão, em papel de pão virado ao contrário, a Carta 1.

 

> "Paloma, minha onça...

> Sei que errei ao me afastar quando você mais precisava. Foi covardia minha. Aqui dentro a gente aprende que distintivo não esquenta à noite. Só o teu cheiro naquela sala de cartório me esquenta até hoje. Se ainda tiver um resto de nós, me responde. Se me perdoar, pede para o irmão trazer de volta com uma dobra na ponta. A gente dá um jeito de se ver. Teu eterno Delegado. Augusto."

 

Dobrou em quatro, passou manteiga na borda para não abrir e entregou ao Irmão Valdir com um versículo falso: "Entrega para a irmã Paloma, é palavra de fortaleza, Romanos 8:28".

 

Valdir, inocente, levou. E na semana seguinte, trouxe a resposta.

 

Paloma respondeu com batom vermelho, porque na cadeia feminina batom é moeda.

 

> "Augusto,

> Se você soubesse o frio que é aqui. Nenhuma das meninas me respeita porque eu fui polícia. Eu te perdoo. Eu também errei em querer a fazenda do coitado do Texano. A gente foi ganancioso. Sim, eu quero te ver. Dá um jeito. Tua Paloma."

 

Sinal verde. Com dobra na ponta.

 

Agora vinha a parte 2 do plano. O golpe do Termo de Convivência.

 

Augusto não era bobo. Sabia que o Regulamento da SEJUS-RO permite visita íntima apenas para cônjuges, companheiros com união estável comprovada ou com Termo de Convivência Marital assinado e registrado em cartório dentro do presídio.

 

Ele então solicitou ao Comissário de Equipe da Polícia Penal, um velho conhecido de churrasco de quartel, uma "conversa reservada" com o Diretor da Penitenciária. O pedido foi atendido - ex-delegado ainda tem resquício de autoridade.

 

Na sala do Diretor, com ar-condicionado pingando, Augusto chorou. Pela primeira vez, chorou de verdade.

 

"Doutor Diretor, eu sei que sou um lixo para o sistema. Mas eu e a Paloma... a gente se perdeu. A gente começou errado, mas agora a gente só tem um ao outro. Perdemos cargo, família, fazenda que nunca tivemos. Se o senhor não deixar a gente se ver, nós vamos enlouquecer. Eu não quero visita para sexo, eu quero visita para não me matar aqui dentro."

 

E soltou a frase de ouro, que todo diretor de presídio teme: "Se acontecer algo comigo ou com ela por depressão aqui dentro, vai para a mídia que o senhor negou o direito de visita íntima previsto na LEP".

 

O Diretor, um homem prático, cansado de rebelião, olhou o processo: dois ex-policiais, sem facção, baixo risco de fuga, sem visitas há 8 meses. Era mais fácil liberar do que explicar um suicídio.

 

"Providencia o Termo", ele disse.

 

Foi então que a máquina da burocracia prisional trabalhou a favor do amor bandido.

 

O Cartório de Notas de Rolim de Moura foi acionado dentro da Penitenciária. Vieram duas testemunhas - dois policiais penais. Foi redigido o *TERMO DE CONVIVÊNCIA MARITAL E UNIÃO ESTÁVEL CARCERÁRIA*, onde Augusto e Paloma declaravam viver em união pública, contínua e duradoura, com objetivo de constituição de família - mesmo que a família fosse entre as grades de Rolim e Cacoal.

 

Assinaram. Reconheceram firma com o polegar sujo de tinta, porque no presídio não tem caneta chique.

 

Com o termo, fizeram o cadastro biométrico. Foto 3x4 com fundo branco, com uniforme laranja. Cadastro de visita íntima recíproca.

 

E assim, toda sexta-feira, a grande ironia do destino se cumpre.

 

Às 14h, Paloma sai algemada do presídio feminino de Cacoal, numa Van da SEJUS, com outras duas presas que vão visitar seus maridos. Às 14h30, Augusto sai da cela, toma banho de caneco, passa perfume de colega.

 

Às 15h, no parlatório íntimo da Penitenciária Regional - um quarto de 3x3 com cama de alvenaria, colchão de espuma fina e um balde -, os dois se encontram. Não são mais Delegado e Escrivã. São apenas Augusto e Paloma. Marido e mulher do flagelo.

 

E lá, onde perderam tudo - cargo, honra, fazenda -, eles provam que a criatividade do delegado serviu para uma última coisa: reconquistar a única pessoa que afundou junto com ele.

 

A visita íntima que começou com uma carta levada por um irmão evangélico que achava que levava a palavra de Deus, mas levava a palavra do diabo com batom.

 

Fim da Parte 3.

Werneck Bellini
Enviado por Werneck Bellini em 01/09/2026
Alterado em 08/09/2026
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