Eliozani Miranda Costa
O DNA do Kararauto
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links
Textos

A JANELA DO ENCANTO

*A JANELA DO ENCANTO*

 

Dois velhinhos dividiam o mesmo quarto de hospital há meses.

 

Dois corpos doentes, mas dois mundos completamente diferentes.

 

Um deles tinha a sorte - ou o azar - de ficar ao lado da janela. O outro, na parede oposta, só via a porta, o soro pingando e a tinta descascada do teto.

 

Toda manhã, às seis horas, com um esforço que fazia a enfermeira prender a respiração, o homem da janela se arrastava, se sentava na cama, apoiava as costas doloridas e começava o ritual.

 

"Meu amigo, você não acredita... hoje tem um cachorrinho vira-lata brincando com um gato amarelo na calçada. O gato finge que não quer, mas está adorando."

 

No outro dia:

 

"Hoje o dia está bonito. Tem três pássaros coloridos, um azul, um vermelho, outro verde, pousados num galho de ipê. Estão cantando só pra gente."

 

Em outro:

 

"Acabou de passar um casal de namorados, devem ter uns 16 anos. De mãos dadas, rindo, com mochila nas costas. Devem estar atrasados para a escola."

 

E assim, toda manhã, o quarto cinza se transformava em praça, em parque, em vida. O homem da parede ria, imaginava, voltava a ter vontade de tomar o remédio, de comer a sopa, de viver mais um dia só para ouvir a próxima janela.

 

Até que numa manhã, o silêncio.

 

O homem da janela não se levantou. Não tossiu. Não chamou a enfermeira. Tinha partido durante a noite, em paz, como quem termina de contar sua última história.

 

O quarto ficou escuro. Não porque a luz apagou, mas porque a janela se calou.

 

O outro velhinho chorou. E dias depois, com uma saudade que doía mais que a doença, pediu:

 

"Moça, me deixa ir para a cama da janela? Só um pouquinho?"

 

A enfermeira, com pena, ajudou. Ele, que não andava há semanas, fez uma força sobre-humana, se arrastou, se sentou ofegante, agarrou o parapeito e olhou para fora ansioso para finalmente ver com os próprios olhos o mundo que o amigo lhe pintava.

 

E então gritou:

 

"Doutora! Tem algo errado! Aqui só tem um muro! Um muro alto, sujo, de tijolos! Onde está o cachorro? Onde estão os pássaros? Onde está o casal? Meu amigo mentiu para mim?"

 

A enfermeira o segurou pelos ombros, com os olhos cheios d'água e disse a frase que ele nunca mais esqueceu:

 

"Meu senhor... o seu amigo era cego de nascença. Ele nunca viu muro nenhum."

 

REFLEXÃO: QUAL JANELA VOCÊ TEM ESCOLHIDO OLHAR?

 

Essa história não é sobre hospital. É sobre nós.

 

Todos nós estamos num quarto com um muro na frente. O muro tem nome: conta para pagar, doença, traição, divórcio, decepção, medo do futuro.

 

Não tem como fugir do muro. Ele existe.

 

A diferença entre sofrer e viver não está no que está lá fora, mas no que você decide descrever para si mesmo e para os outros todas as manhãs.

 

Tem gente que tem olhos perfeitos e só enxerga o muro. Reclama, se vitimiza, contamina o quarto inteiro com o cheiro do seu azedume. Está na luz, mas vive na escuridão.

 

E tem gente que, mesmo cega, mesmo doente, mesmo no fim da vida, escolhe ser janela. Escolhe inventar cachorro, pássaro e casal de namorados. Não por mentira, mas por bondade. Entendeu que a vida não é o que a gente VÊ, é o que a gente DECIDE MOSTRAR.

 

O amigo cego não via o mundo lá fora, mas ele via o mundo aqui dentro: via a tristeza do companheiro de quarto e decidiu curá-la. Na sua escuridão, ele foi luz.

 

Você não pode evitar o sofrimento necessário. A dor vem. A perda vem. A doença vem.

 

Mas o sofrimento desnecessário, esse que a gente cria quando só olha para o muro e esquece de imaginar o resto, esse pode ser evitado.

 

Hoje, quando você acordar, faça o exercício do velhinho cego:

 

Olhe para o seu muro e pergunte: O que eu posso descrever de bonito hoje, apesar do muro?

 

Talvez você ainda possa ser a janela de alguém.

Werneck Bellini
Enviado por Werneck Bellini em 30/08/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários