*A JANELA DO ENCANTO*
Dois velhinhos dividiam o mesmo quarto de hospital há meses.
Dois corpos doentes, mas dois mundos completamente diferentes.
Um deles tinha a sorte - ou o azar - de ficar ao lado da janela. O outro, na parede oposta, só via a porta, o soro pingando e a tinta descascada do teto.
Toda manhã, às seis horas, com um esforço que fazia a enfermeira prender a respiração, o homem da janela se arrastava, se sentava na cama, apoiava as costas doloridas e começava o ritual.
"Meu amigo, você não acredita... hoje tem um cachorrinho vira-lata brincando com um gato amarelo na calçada. O gato finge que não quer, mas está adorando."
No outro dia:
"Hoje o dia está bonito. Tem três pássaros coloridos, um azul, um vermelho, outro verde, pousados num galho de ipê. Estão cantando só pra gente."
Em outro:
"Acabou de passar um casal de namorados, devem ter uns 16 anos. De mãos dadas, rindo, com mochila nas costas. Devem estar atrasados para a escola."
E assim, toda manhã, o quarto cinza se transformava em praça, em parque, em vida. O homem da parede ria, imaginava, voltava a ter vontade de tomar o remédio, de comer a sopa, de viver mais um dia só para ouvir a próxima janela.
Até que numa manhã, o silêncio.
O homem da janela não se levantou. Não tossiu. Não chamou a enfermeira. Tinha partido durante a noite, em paz, como quem termina de contar sua última história.
O quarto ficou escuro. Não porque a luz apagou, mas porque a janela se calou.
O outro velhinho chorou. E dias depois, com uma saudade que doía mais que a doença, pediu:
"Moça, me deixa ir para a cama da janela? Só um pouquinho?"
A enfermeira, com pena, ajudou. Ele, que não andava há semanas, fez uma força sobre-humana, se arrastou, se sentou ofegante, agarrou o parapeito e olhou para fora ansioso para finalmente ver com os próprios olhos o mundo que o amigo lhe pintava.
E então gritou:
"Doutora! Tem algo errado! Aqui só tem um muro! Um muro alto, sujo, de tijolos! Onde está o cachorro? Onde estão os pássaros? Onde está o casal? Meu amigo mentiu para mim?"
A enfermeira o segurou pelos ombros, com os olhos cheios d'água e disse a frase que ele nunca mais esqueceu:
"Meu senhor... o seu amigo era cego de nascença. Ele nunca viu muro nenhum."
REFLEXÃO: QUAL JANELA VOCÊ TEM ESCOLHIDO OLHAR?
Essa história não é sobre hospital. É sobre nós.
Todos nós estamos num quarto com um muro na frente. O muro tem nome: conta para pagar, doença, traição, divórcio, decepção, medo do futuro.
Não tem como fugir do muro. Ele existe.
A diferença entre sofrer e viver não está no que está lá fora, mas no que você decide descrever para si mesmo e para os outros todas as manhãs.
Tem gente que tem olhos perfeitos e só enxerga o muro. Reclama, se vitimiza, contamina o quarto inteiro com o cheiro do seu azedume. Está na luz, mas vive na escuridão.
E tem gente que, mesmo cega, mesmo doente, mesmo no fim da vida, escolhe ser janela. Escolhe inventar cachorro, pássaro e casal de namorados. Não por mentira, mas por bondade. Entendeu que a vida não é o que a gente VÊ, é o que a gente DECIDE MOSTRAR.
O amigo cego não via o mundo lá fora, mas ele via o mundo aqui dentro: via a tristeza do companheiro de quarto e decidiu curá-la. Na sua escuridão, ele foi luz.
Você não pode evitar o sofrimento necessário. A dor vem. A perda vem. A doença vem.
Mas o sofrimento desnecessário, esse que a gente cria quando só olha para o muro e esquece de imaginar o resto, esse pode ser evitado.
Hoje, quando você acordar, faça o exercício do velhinho cego:
Olhe para o seu muro e pergunte: O que eu posso descrever de bonito hoje, apesar do muro?
Talvez você ainda possa ser a janela de alguém.