*Divórcio - A Separação dos Corpos, Não das Lembranças*
Às vezes o divórcio é necessário,
é cirurgia.
Quando o amor adoece de dor,
quando o lar vira prisão fria,
quando ficar machuca mais que partir,
é preciso coragem para dizer: acabou.
Mas quantos divórcios nasceram de bobeira?
De uma palavra dita na hora errada,
de um orgulho que não soube pedir perdão,
de um celular que espiou demais,
de um silêncio que gritou de menos,
de um "tanto faz" que virou abismo.
O juiz assina,
carimba,
encerra.
Dois corpos que antes dormiam colados,
agora dormem em CEPs diferentes.
Duas escovas de dentes que se separam,
duas vidas que aprendem a desaprender a rotina.
O divórcio separa os corpos,
divide os bens, os amigos, o sobrenome.
Mas não apaga da mente.
A mente é desobediente, não respeita sentença.
Ela guarda o cheiro do café que o outro fazia,
o jeito torto de rir,
a mania de deixar a toalha molhada na cama,
o "meu amor" sussurrado numa noite qualquer de terça-feira.
E mesmo passando décadas,
vinte, trinta anos,
quando a vida já refez, já casou de novo, já tem netos,
numa madrugada qualquer, sem pedir licença,
a pessoa volta.
Volta em sonho.
Jovem, como no primeiro dia.
Chamando de novo de "meu amor".
Com a mesma voz, com a mesma mão no rosto.
E a gente acorda,
com o peito apertado e sorriso ao mesmo tempo,
e percebe que o divórcio conseguiu tudo,
menos fazer a alma esquecer.
Porque papel separa endereço,
mas não separa história.
E tem história que, mesmo divorciada,
continua morando na gente.