*O RASCUNHO QUE ARDE*
O mundo se inverteu no tribunal,
o homem tropeça no seu próprio ideal.
Se fere a mata, algema no pulso,
se mata o irmão, discurso insulso.
Réu primário, pena suspensa,
a vida humana virou dispensa.
Amam mais o cão que o vizinho,
beijam a pata e negam o caminho.
Adoram a árvore, a pedra, o mar,
e esquecem Quem fez o mar quebrar.
Fizeram da Criação o próprio Deus,
e deixaram de fora o Dono dos céus.
Dizem: "A Terra é mãe, ela é viva,
eterna, deusa, intempestiva."
Mentira mansa, doutrina torta.
A Terra é barro, é casa morta.
É cenário, não é o Autor,
é rascunho, não é o Pintor.
Porque está escrito, e há de ser:
o céu vai se enrolar como papel ao arder.
Deus vai tocar com fogo no véu,
Sol e Lua cairão do céu.
Estrelas como figos maduros no chão,
planetas desfeitos na palma da mão.
Galáxias, cosmos, via-láctea em brasa,
Tudo que o homem chamava de casa.
Tudo queima. Tudo se desfaz.
Não porque Deus é cruel, mas porque Ele refaz.
Isto aqui só dura por causa dos Seus,
os escolhidos que gemem entre os ateus.
A Terra é sustentada por um fio de oração,
o mundo ainda existe por causa da intercessão.
Mas quando a trombeta rasgar o ar,
e os escolhidos começarem a subir,
quando os pés dos santos deixarem o chão
para com Jesus no céu se unir...
Embaixo não sobra mais nada.
O palco apaga. A cortina cai.
O rascunho é jogado no abismo profundo,
e só o Eterno permanece.
O que era adorado vira cinza,
o que era eterno se mostra fumaça.
E só resta uma pergunta nua:
Quem você adorou? A obra ou Quem a traça?