*OS QUE PASSAM COMO GENTE*
Há quem diga que viu um homem de branco,
sem pressa na rua, com olhos de eternidade.
Não tinha asas quando passou,
mas deixou luz onde havia saudade.
Há quem jure que cruzou com um de negro,
de sorriso frio, bonito como abismo.
Também sem asas, também humano,
mas o ar ficou pesado de cinismo.
Seriam anjos? Seriam sombras?
Por que tão poucos os percebem?
Não é que o céu seja oculto demais,
é que o homem está distraído demais.
O véu não é espesso, é sutil,
como névoa fina ao amanhecer.
Só vê quem aquieta o ruído,
só sente quem aprende a crer.
Anjos não precisam de asas para voar,
precisam de um olhar que saiba parar.
Demônios não precisam de chifres para ferir,
basta uma alma cansada para os seguir.
Eles não se escondem, eles esperam.
Esperam a fé que não pede prova,
a oração que não pede milagre,
o silêncio que a alma renova.
O mundo espiritual não é longe,
é aqui, dobrado sobre o nosso.
Um sopro além da pele,
um toque além do osso.
Por isso só alguns veem:
não são os escolhidos,
são os que ainda acreditam
que o invisível também está vivo.