*Incomunicabilidade Proposital*
Eu vejo o online acender,
verde, vivo, na mesma hora.
Mando um "oi" que fica só,
com dois risquinhos que não viram dois azuis.
Ligo uma vez, a voz chama,
chama, chama até cair.
Ligo de novo, insiste, teima,
e do outro lado, o silêncio insiste em existir.
É estranho esse jogo mudo,
você tá lá e não está,
o aplicativo diz: presente,
mas a pessoa diz: não dá.
A mensagem fica órfã
no limbo da tela fria,
eu releio o que escrevi
procurando o que eu faria.
Será que falei demais?
Será que falei de menos?
Será que virei incômodo
nos teus planos tão pequenos?
Isso causa um nó esquisito,
uma vergonha sem plateia,
a gente se sente intruso
na própria vida alheia.
Porque não é o silêncio
que mais machuca o peito,
é o silêncio proposital,
o desprezo bem feito.
Dói mais que um "não quero",
mais que um "me deixa",
dói ser ignorado
por quem a gente não deixa.
Se não quer conversar,
diz, resolve, encerra.
Mas não me deixa falando
sozinho com a tela.
Que o online sem resposta
é porta na cara,
é "te vi e não quis ver",
é ausência que dispara.
Hoje eu aprendi:
quem quer, atende.
Quem se importa, responde.
Quem não quer, finge que o Wi-Fi
caiu bem onde eu me esconde.