*Romance em Silêncio*
Casa grande, barulho pequeno.
Duas portas fechadas, duas filhas em fone.
O dia passa no estudo, a noite na tela,
e a sala vira corredor entre vidas que se esbarram.
Ele chega tarde, cumprimenta o sofá.
Ela serve o jantar, guarda o silêncio na gaveta.
Casamento de amigos.
De "bom dia" e "boa noite",
sem o meio.
Nas horas vagas ela foge pra dentro dos livros.
Romance com capa dura e final que arde.
Palestra de domingo sobre família,
e no banco ela reza por uma família que não doe.
Mas existe um segredo que não cabe mais no segredo.
Um nome que ela não diz,
mas que mora no jeito dela arrumar o cabelo,
no livro que ela demora pra fechar,
no sorriso que escapa quando o celular vibra.
As filhas sabem.
Não porque viram.
Porque amizade de mãe e filha não precisa de prova.
Elas veem o brilho torto,
ouvem a pausa longa antes do "tá tudo bem".
E guardam. Sem julgar.
É difícil, Deus.
Divórcio em casa evangélica pesa como púlpito vazio.
O que vão dizer?
O que vão pensar da mulher que quis ser feliz duas vezes?
Então ela ama quieta.
Ama como quem lê à luz de abajur:
baixinho, pra não acordar ninguém.
Ama com culpa e com saudade,
com a rosa do romance na mão
e o dever na outra.
Não pede fuga. Pede colo.
Não pede pecado. Pede presença.
Pede que alguém veja a mulher
atrás da esposa,
atrás da mãe,
atrás do "está tudo certo".
E enquanto a casa dorme,
ela fecha o livro no melhor capítulo,
olha pra janela,
e permite, só por um minuto,
sonhar um amor que não machuca ninguém.
Só ela.
Só por hoje.
Porque tem romance que não acontece.
Acontece dentro.
E às vezes, isso já é o bastante pra continuar.