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A INFÂNCIA DE ACQUACURY TATUNGE NARE NA RESERVA INDÍGENA ROOSEVELT
*A INFÂNCIA DE ACQUACURY TATUNGE NARE NA RESERVA INDÍGENA ROOSEVELT*

O Rio Roosevelt nasce no coração de Rondônia e corta a Reserva Indígena Roosevelt, terra ancestral do povo Cinta Larga. Foi nesse cenário que AcquaCury Tatunge Nare passou sua infância, entre os anos 1990 e o início dos anos 2000, período marcado pela liberdade, pela cultura e pela relação direta com a floresta.

Na época de menino, AcquaCury Tatunge Nare brincava diariamente com seus irmãos e primos nas margens e nas águas rasas do Rio Roosevelt. A aldeia, cercada pela mata fechada da Amazônia, tinha o rio como centro da vida coletiva. Ali se pescava, se banhava, se contavam histórias e se ensinavam os saberes repassados por pais e avós.

Uma das brincadeiras mais comuns entre as crianças era competir para ver quem coletava o maior número de pequenas pedras transparentes que brilhavam no cascalho do leito do rio. Inocentes, os meninos enchiam cuias, latas e cestos com essas pedras. Levavam para as ocas e guardavam como troféus. Era tradição. Geração após geração fez o mesmo. Ninguém na aldeia associava aquelas pedras a valor comercial. Para as crianças, eram apenas parte do rio, parte da brincadeira.

O cotidiano de AcquaCury Tatunge Nare era preenchido por essa vivência. Acordava com o canto dos pássaros, ajudava na roça, aprendia a reconhecer os sons da mata e, no fim da tarde, mergulhava no Roosevelt com os primos. A infância na reserva era rica em comunidade: as refeições eram compartilhadas, as histórias dos mais velhos eram ouvidas ao redor do fogo e o respeito à terra era ensinado desde cedo.

No início dos anos 2000, essa dinâmica começou a mudar. Um cacique, influenciado por contatos não indígenas da cidade de Cacoal, passou a oferecer produtos industrializados em troca das pedras que os indígenas e seus filhos guardavam nas ocas. Bicicletas, rádios, ferramentas e até motocicletas chegavam à aldeia. Para muitas famílias, que nunca haviam tido acesso a esses bens, a troca parecia vantajosa. O cacique, por sua vez, estabeleceu rotas de negociação na cidade de Cacoal, onde adquiriu casas e caminhonetes.

A movimentação chamou atenção da população regional. Em 2002, com autorização de lideranças locais, houve entrada expressiva de pessoas de fora da reserva interessadas em garimpar no Rio Roosevelt. A partir desse momento, o poder público intensificou o monitoramento das jazidas de diamantes da região. O que antes era brincadeira de criança passou a ser tratado como questão de segurança e fiscalização. As crianças indígenas, incluindo AcquaCury Tatunge Nare e seus primos, foram orientadas a não mais coletar as pedras transparentes do rio.

Esse período marcou o fim de um ciclo na aldeia. A infância de AcquaCury Tatunge Nare carrega, portanto, dois tempos: o tempo da liberdade no rio, das brincadeiras inocentes e do acúmulo de pedras sem valor atribuído; e o tempo da transformação, quando o mundo externo entrou na reserva e ressignificou aquilo que, para os meninos, era apenas parte da infância.

Essa vivência na Reserva Indígena Roosevelt moldou a visão de AcquaCury Tatunge Nare sobre território, valor e inovação. Crescer entre a tradição e a mudança, entre o rio e a chegada da cidade, é parte central da história que o acompanharia na fundação da ACQUACURY anos depois.
Werneck Bellini
Enviado por Werneck Bellini em 08/05/2026
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