*O Festim do Rato de Paletó*
No palanque ele ergue a mão calejada de promessa,
Voz de mel, gravata reta, sorriso de quem confessa
Que nasceu do povo, que sente a fome alheia,
Mas janta em porcelana enquanto a rua está cheia.
Chama de “projeto” o desvio, de “custo” o roubo,
Batiza de “taxa” o assalto, de “ajuste” o engodo.
Assina decreto com caneta de ouro maciço,
E o ouro some do cofre, mas ninguém viu o feitiço.
Ele não arromba portas, arromba orçamentos.
Não usa capuz, usa cargo e regulamentos.
O cofre tem senha: se chama “emenda”, “licitação”,
E a chave gira fácil na mão da propina, irmão.
Discursa sobre ética entre um gole e outro de vinho caro,
Brinda o “sacrifício” do povo, mas quem paga é o otário.
Diz que a pátria é mãe, mas trata como amante:
Suga, bate, mente, e some no instante.
Nas escolas falta giz, no hospital falta leito,
Mas no gabinete dele tem carpete, quadro e respeito.
Tem motorista, assessor, verba de gabinete,
E um silêncio comprado que ninguém repete.
Ele ama estatística quando maquia o fracasso.
Chama de “investimento” o que é só atraso.
Inaugura placa, não estrada; corta fita, não a fome.
E o nome dele em ponte esconde o rombo em meu nome.
O rato de paletó não corre, desfila.
Não foge da luz, faz live, sorri, cintila.
Transforma imposto em anel, em viagem, em festa,
E quando a conta chega, diz que “a culpa é da floresta”.
Mas o povo não é cego, só está cansado.
Conta moeda no busão, vê o filho desdentado,
E guarda no peito um arquivo que não queima:
Cada nota fria, cada obra que não sai do esquema.
Um dia a rua cobra. E a rua não perdoa.
Não tem foro, não tem rito, não tem história boa.
Tem memória. E a memória é faca de dois gumes:
Corta o cargo, corta o nome, e escreve nos costumes.
Que teu paletó vire mortalha de manchete,
Que tua caneta seque antes do próximo bilhete.
Que teu legado seja aviso, não exemplo:
Aqui jaz um ladrão que chamou roubo de templo.
Enquanto isso, a gente segue. De marmita e boleto.
Erguendo país de verdade, tijolo por tijolo, reto.
Sem medalha, sem propina, sem tapete vermelho,
Mas com a única riqueza que político não tem: espelho.