O ESPIÃO ACQUACURY DE OLHO NA AMAZÔNIA.
"Nessas Fronteiras De Nossa Pátria, Rondônia Trabalha Febrilmente." 1 Capitulo - Parte 1, Aquacury, 21 de janeiro de 2019.
Após a academia, que durou seis meses, ao assinar o termo de posse, o delegado Paulo Augusto, que já tinha todas as informações sobre mim, me chamou em particular e perguntou:
"O que você resolveu junto à sua família?" Considero que não tenho família, senhor!
Mas você não é casado?
Já divorciamos. Logo que passei no concurso, minha esposa ficou mal-humorada e disse que minha decisão teria que ser entre escolher a carreira policial ou o casamento, pois ela não ia me acompanhar mundo afora.
"Você ainda se sente preparado para sua primeira missão?
" Não, senhor!
O delegado me olhou com ar de espanto e, apoiando os cotovelos na escrivaninha, com as mãos cruzadas, que estavam em um gesto rápido, desenlaçando-se os dedos e afastando-se as mãos, virando as palmas para cima e em minha direção, me interpelou:
"Não? Quer dizer que você resolveu reatar o casamento e desistir daquilo que você sempre sonhou?
" Eu nunca disse que sempre foi meu sonho.
"Tem certeza de que não quer mesmo dar esse orgulho aos seus pais?
" Pelo tom de voz, percebi que o delegado estava ficando nervoso, mas pelo jeito em que ele me dirigia as perguntas, ele ia demorar a compreender o que, na realidade, eu tinha para dizer e concluir a resposta da terceira pergunta.
Eu não me importava que prolongasse o diálogo, afinal eu estava desfrutando um pouco mais do conforto daquela poltrona macia, revestida de couro branco, tentando familiarizar o fantasma da palavra "missão". Então prossegui:
"Meus pais não existem Senhor!
Segundo minha mãe adotiva, meu suposto pai tinha uma Serraria de Madeira na cidade de Dois Vizinhos - Santa Catarina, e minha mãe teve um caso amoroso com um Caminhoneiro e resolveu deixar o marido, e se foi para Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul.
Acredita-se que ela, ao perceber a gravidez, e não tendo certeza se engravidara do esposo ou do caminhoneiro, decidiu ausentar de casa até que a criança nascesse. E assim procedeu. Assim posso dizer que não tenho pai.
" No hotel em que minha mãe se hospedara em Campo Grande, estava disponível uma vaga para camareira e ela pediu o emprego, pelo qual foi aceita pelo casal de proprietários idosos. Não se sabe se minha mãe continuou encontrando o tal caminhoneiro. Sabe-se apenas que o esposo dela sempre ligava e a convidava para voltar para casa. Ela não falava nada para ele sobre a traição, muito menos sobre a gestação. Ela aguardou o nascimento do bebê para analisar a aparência e assim ela julgou que sou filho do caminhoneiro.
Ela me amamentou alguns meses e, assim que seu corpo voltou ao normal, ela concordou com o esposo de retornar para casa. Sem explicações, ela chegou nos patrões e disse: "Fiquem com esse menino, ou deem para quem queira. Pois eu estou indo embora e não posso levar o menino." Os velhinhos do hotel não se interessaram por mim. Saíram pela cidade me oferecendo a casais de amigos. Até que encontraram uma mulher japonesa que não conseguia engravidar. E essa resolveu me criar, talvez me adotar.
Assim que a japonesa me levou para sua casa, ela veio a ficar grávida. E se dirigiu aos velhinhos do hotel para devolver o menino. Saíram os velhinhos novamente me oferecendo, como se eu fosse filhote de gato ou de cachorro sem raça. Até que encontrou essa que me adotou. Para ela, o que eu decidir está bom. Ela acredita na competência do filho que ela criou.
O delegado suspirou. "Sinto muito pela sua história. Não imaginei que fosse assim." Sem problema, respondi. "De qualquer forma, respeito sua escolha. Se você não quer mesmo dar continuidade, não posso lhe forçar." Eu não disse que não quero continuar. "Você está me deixando confuso, rapaz." Quando te perguntei se já se sentia preparado para sua primeira missão, você respondeu: "Não, senhor." É verdade, respondi assim mesmo. "Não posso lhe afirmar que me sinto preparado sem antes ter em minhas mãos a minha nova carteira de identidade. Um nome falso a que tenho por direito, pertinente às peculiaridades da profissão."
"Ora, ora, você me deu um susto, garotão. Vamos cuidar disso agora. Já tem em mente seu novo nome?" Sim, senhor, meu nome é Léo Nardo Aquacury. "Bacana, parece nome de cantor famoso, Leonardo Aquacury." Não, senhor, eu não disse Leonardo emendado, eu disse Léo Nardo separado. Ok, ok, agora entendi. Desculpe, senhor Aquacury. Após dizer assim, ele sorriu e passou a folha com as anotações para a moça que estava do outro lado do balcão ouvindo nossa conversa e disse a ela:
"Layane, providencie a credencial do agente Aquacury, por favor." "Sim, senhor, já tenho a foto dele, mas quanto aos demais dados. Nome dos pais, local de nascimento, data de nascimento." Peguei o papel com Layane e criei dados fictícios e devolvi a folha a ela.
Paulo Augusto se levantou da cadeira e, dando sinal para que eu o seguisse, segurou a maçaneta da porta ao seu lado, girou, abriu a porta e entrou em seu gabinete e ordenou que eu sentasse na cadeira de frente à sua mesa e falou: "Senhor agente Aquacury, estive analisando vários currículos ou históricos, o nome não importa, de nossos novos agentes, a fim de escolher o que melhor atendesse uma necessidade emergente.
O seu perfil foi o que melhor enquadrou. Não que duvidamos da competência dos demais. Não é isso. É que você mencionou o fato de, desde garoto, ter trabalhado na zona rural, na lida com gado, com trator, com equipamentos agrícolas, que o castigo do sol não lhe mete medo, que já morou sozinho na fazenda, inclusive lavando a própria roupa e cozinhando a própria comida."
E falando com você agora pessoalmente, posso garantir que realmente você tem mesmo a personalidade que responde à altura de nossa busca.
É uma missão um tanto perigosa e longe daqui. Talvez você terá que viver como indigente, sem dinheiro, sem mulher, sem filhos, sem o luxo que as grandes cidades oferecem. Mas tem como vantagem, ao final de cada missão, que pode durar de seis meses a dois anos ou mais, dependerá do grau de complexidade de cada investigação e operação, você será indenizado de uma forma justa. Não temos uma tabela para as indenizações, mas uma coisa que eu posso lhe garantir: você terá mensalmente um acréscimo de nada menos que 50% do salário.
Ele deu uma pausa e me perguntou: "Tem coragem de encarar?" Antes que eu respondesse, alguém bateu na porta e o delegado falou: "Pode entrar." Era a Agente Layane. Com minha credencial, distintivo, uma carteira contendo cartão de crédito e uma mochila preta com vários equipamentos, tais como binóculo, câmera fotográfica, micro-câmeras, notebook, telefone celular, etc.
Ela me entregou tudo aquilo e falou: "Senhor Aquacury, a mala com seus uniformes, o senhor pega comigo ao sair. Seu primeiro salário já está depositado em sua conta bancária com acréscimo de 50%. Lembrando, os coturnos, a arma, os carregadores, a munição e os coldres também estão na mala. Depois você pega também a nova CNH. Já está ficando pronta." E saiu.
"Tudo assim tão rápido? Como mágica?" perguntei ao delegado. "E então, está pronto?" Ele interrogou. "Preciso viajar quando?" respondi.
"Aqui está o roteiro da primeira missão e as demais ficam a seu critério, pelo menos de vez em quando dê sinal de vida."
Ao dar uma rápida olhada no roteiro, senti uma pontada no peito que quase gritei, mas me contive e simplesmente falei: "Seja o que Deus quiser. Se eu não for devorado pelos canibais nem por seus rivais, talvez eu apareça daqui uns dois anos ou mais."
Aí sim, eu boto fé, irmão. Mas não esqueça que a CNH vence a cada cinco anos e você precisa estar aqui para renovar. Talvez eu não precise dela. Posso andar de carona. "Te desejo sucesso e muita sorte, amigo. Em qualquer situação, conte comigo." De pé, um aperto de mão e um abraço.
Saí do gabinete do delegado um tanto preocupado, mas consegui manter um sorriso forçado. Na próxima semana, eu estaria muito longe, em outro estado. Ficaria isolado, longe dos amigos, longe da ex-esposa, longe da mãe adotiva, talvez longe de lojas, supermercados, longe até da eletricidade. No entanto, estava me sentindo realizado. Agora eu era um agente da Polícia Federal.
A Agente Layane me entregou a mala com rodinhas. Ela me deu um abraço apertado e disse: "Muito sucesso e boa sorte, Aquacury. Espero te ver mais vezes. Foi um prazer te conhecer. Tão jovem e tão determinado. Isso me encanta." Obrigado, o prazer é meu. "A gente se fala, beijos." Eu despedi assim tão rápido. Não que eu não quisesse demorar conversando com aquela moça bonita, encantadora. Muito pelo contrário.
Desde quando a vi, do momento em que comecei a falar com o delegado e vi ela do outro lado do balcão, aquela loira de olhos azuis, me observando, já senti meu coração bater forte. Talvez seja o que dizem ser amor à primeira vista. Quando ela se despediu de mim daquela forma afetuosa, eu perdi a fala, fiquei perdido entre "espero te ver mais vezes" e "sei que talvez você desapareça do mapa". Posso dizer que li essa última frase em seus olhos.
Eu já havia aceitado o desafio da missão. Nunca imaginei mesmo ser um policial que recusasse uma tarefa por achar ela complicada. Eu estava pronto para colocar em prova prática, tudo que na teoria eu já havia exposto voluntariamente.
Talvez eu tivesse exagerado. Agora parecia que o medo da solidão já queria aterrorizar minha mente. Por que justo agora eu tivesse que conhecer essa moça? Seria ela a próxima a dominar as rédeas do meu coração?
Ainda bem que consegui sair sem pedir o número de telefone dela. Quando cheguei em casa, abri a mala para conferir o conteúdo. E logo dei de cara com uma folha de sulfite escrito de pincel: "Me ligue antes de viajar. Um abraço, Layane." O número estava no verso.
Hoje é 01 de maio de 2025
Até a próxima parte.
1a. Observação: Leia ao menos os Capítulos 1, 2 e 3 pra entender melhor o final. Tá legal?
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"Nessas Fronteiras De Nossa Pátria, Rondônia Trabalha Febrilmente."